Falta audácia aos clubes brasileiros (por Erasmo Angelo)

Para o bem do futebol brasileiro, a questão da criação da Liga Nacional de Clubes volta a debate. Talvez como consequência da [...]


Para o bem do futebol brasileiro, a questão da criação da Liga Nacional de Clubes volta a debate. Talvez como consequência da recente viagem à Europa que a CBF liderou e incluiu vários dirigentes de clubes, para que estes conhecessem, em detalhes, o funcionamento das maiores ligas de futebol europeias.

Um avanço bastante significativo. Também uma demonstração de que a nova administração da Confederação apoia e incentiva a criação da Liga nacional, mas não nos esdrúxulos modelos atuais, que mostram duas organizações que não se entendem e que nada significam. Um atraso. Culpa da falta de audácia da direção dos nossos clubes.

No Brasileirão há dois grupos, que os seus administradores chamam, equivocadamente, de ligas. Um deles é o Futebol Forte União (FFU), antes denominado Liga Forte União (LFU). É integrado por Corinthians, Inter, Cruzeiro, Fluminense, Vasco, Botafogo, Mirassol, Atlético/PR, Coritiba e Chapecoense.

O outro grupo tem o nome de Libra (Liga do Futebol Brasileiro). Dele fazem parte Bahia, Flamengo, Atlético/MG, Grêmio, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Clube do Remo, Santos, São Paulo e Vitória.

O dirigente de uma delas, Marcelo Paz, da FFU, lembrou há algum tempo que os clubes buscam “um estilo de gestão no modelo europeu”. Não aconteceu nada até hoje. No modelo europeu, que ele e tantos outros falam, os clubes controlam a Liga e, consequentemente, o campeonato nacional, diferente do modelo praticado no Brasil e no qual tudo é centralizado na CBF.

Aqui, e bem distante do que ocorre do outro lado do Atlântico, os grupos se digladiam só por valores.  Não há, nesta divisão, nenhum impacto na gestão profissional do futebol, pois tudo é voltado apenas para os direitos de transmissão por TV, aumentando o leque dos canais que exibem partidas. E nos embates, uma minoria quer levar vantagem em tudo.

Analistas e alguns dirigentes ponderam que a efetiva modernização da estrutura do futebol brasileiro está na criação da Liga Nacional pelos clubes. Levam em conta, por exemplo, que o Brasileirão/Série A, mesmo nas condições atuais, é classificado pela SportingPedia (site internacional de análises, apostas esportivas e notícias) como a sexta competição de futebol mais valiosa do mundo, estimada em 1.630 bilhão de euros (equivalente a R$ 10 bilhões e 100 milhões, em números do ano passado). Já imaginaram o Brasileirão organizado por uma Liga Nacional tendo como referência modelos europeus de gestão? Seria um show.

A competição mais valiosa do mundo, segundo o mesmo estudo, é a insuperável Premier League, da Inglaterra, avaliada em 11,770 bilhões de euros (equivalente a quase 71 bilhões de reais). É seguida por LaLiga (Espanha), Série A (Itália), Bundesliga (Alemanha) e Ligue 1 (França).

O debate brasileiro sobre a questão da Liga já dura mais de década. E não pode mais ser ignorado. Em entrevista ao “Lance”, há três anos – e hoje atualizada como nunca, Claudio Pracownik, executivo do mercado financeiro e experiente em gestão esportiva, dizia: “Não basta você ter clubes absolutamente profissionais se o produto não tiver gestão profissional. A Liga é a profissionalização dos detentores originais dos direitos comerciais e da gestão do produto”.

Pracownik ressalta na entrevista “O produto do futebol brasileiro ainda é um produto ruim. Não desperta interesse nos outros mercados. A Liga é fundamental no meio desse imbróglio”. Quanto a desunião entre os clubes, destaca: “Essa divisão não é boa para ninguém, para nenhum dos dois lados igualmente. E nesse ponto eles estão iguais: os dois estão perdendo”.

Ligas são fundamentais para o futebol e o tema merece uma nova coluna.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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