
A visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, em fevereiro de 2026, foi recebida pela imprensa e por analistas indianos como um momento estratégico para redefinir a relação entre as duas maiores democracias do chamado Sul Global. A cobertura de veículos como The Economic Times, The Indian Express, Times of India, Hindustan Times e NDTV convergiu em um ponto central: o Brasil deixou de ser visto apenas como parceiro latino-americano relevante e passou a ocupar espaço mais claro na estratégia global de Delhi.
Um “momento definidor” para o Sul Global
Editorialistas e analistas indianos enquadraram a visita dentro de uma narrativa maior: a consolidação de uma cooperação entre potências emergentes que buscam maior autonomia no sistema internacional. A retórica compartilhada entre o presidente Lula e o primeiro-ministro Narendra Modi, com ênfase no multilateralismo, na reforma da governança global e no fortalecimento do Sul Global, foi bem recebida. A percepção dominante foi a de alinhamento político pragmático, baseado em interesses comuns, como segurança alimentar, transição energética, cadeias de suprimentos resilientes e reforma de instituições internacionais.
O eixo mais destacado pela imprensa indiana foi o econômico. A meta de elevar o comércio bilateral para além de US$ 20 bilhões nos próximos anos, com menções à possibilidade de atingir US$ 30 bilhões até 2030, foi tratada como sinal de maturidade da relação. Para analistas econômicos indianos, o comércio atual ainda é considerado aquém do potencial das duas economias e a cobertura enfatizou três áreas estratégicas.
A primeira a dos minerais críticos e terras raras, vistos como essenciais para a indústria tecnológica e de defesa indiana. O Brasil aparece como parceiro-chave para diversificar fornecedores. A segunda gira em torno da energia e biocombustíveis, já que a experiência brasileira em etanol e energia renovável foi tratada como complementar às metas energéticas indianas. Por fim, agronegócio e segurança alimentar, pois a Índia observa o Brasil como potência agroexportadora capaz de fortalecer cadeias alimentares em um contexto global instável. A tônica das análises pelos veículos de comunicação indianos foi de pragmatismo: Delhi busca parceiros confiáveis fora dos eixos tradicionais e o Brasil se encaixa nesse perfil.
Tecnologia e infraestrutura digital
Um dos aspectos mais comentados foi a cooperação em infraestrutura pública digital. A possível aproximação entre o sistema indiano UPI e o brasileiro Pix chamou atenção por simbolizar um intercâmbio tecnológico Sul-Sul, algo ainda raro em escala global. Analistas destacaram que a Índia se vê hoje como exportadora de modelos digitais, especialmente em pagamentos instantâneos e identidade digital, e percebe o Brasil como parceiro capaz de adaptar e cocriar soluções. A cooperação em inteligência artificial e serviços digitais públicos foi descrita como “parceria para o futuro”, com potencial de impacto estrutural nas duas sociedades, sem qualquer intermediação do eixo Europa-EUA.
Embora o foco econômico tenha predominado, a dimensão cultural não passou despercebida. A ampliação de vistos de negócios e turismo foi mencionada como passo concreto para intensificar trocas acadêmicas, culturais e empresariais. Reportagens ressaltaram afinidades simbólicas, como diversidade cultural, sociedades plurais e democracias vibrantes. A Índia reconhece no Brasil não apenas um mercado, mas uma sociedade com identidade cultural forte e influência regional significativa.
A análise da imprensa indiana indica alguns elementos centrais na percepção sobre a visita do presidente Lula. A visita foi vista como avanço consistente e planejado, não como gesto protocolar. Há reconhecimento de que Brasil e Índia têm estruturas produtivas distintas, mas complementares e que ambos buscam maior protagonismo internacional, sem romper com múltiplos polos de poder.
Para Delhi, o Brasil surge como parceiro-chave na América Latina e como aliado relevante na articulação do Sul Global. Para Brasília, a Índia se consolida como interlocutora essencial na Ásia e como potência tecnológica em ascensão. A Índia, uma das sociedades ancestrais do planeta, conta com uma população de mais de 1 bilhão e 200 milhões de pessoas, o que é mais que a população do Brasil, EUA e Europa (incluindo a parte Russa) somadas. Isso é importante para o brasileiro entender a importância superlativa desta visita nos tempos atuais de incertezas advindas dos EUA.
Em síntese, a percepção indiana da visita de Lula foi amplamente favorável e pragmática. A relação Brasil–Índia, segundo a leitura predominante na imprensa local, está deixando de ser periférica para tornar-se estrutural, com comércio ampliado, cooperação digital inovadora e um horizonte de intercâmbio cultural mais intenso. Enquanto muitos analistas brasileiros ainda tentam entender o primeiro-ministro Narendra Modi a partir de percepções tipicamente europeias, o presidente Lula demonstrou, sobretudo aos olhos dos indianos, ter a dimensão decolonial da grandeza e das possibilidades que a Índia apresenta numa relação política-comercial-cultural.
Se a ambição anunciada se converter em execução concreta, 2026 poderá ser lembrado como o ano em que Brasília e Delhi, que alguns indianos pretendem voltar a chamar pelo nome ancestral de Indraprastha, decidiram transformar afinidade política em parceria estratégica efetiva.
Romero Carvalho
Jornalista Cultural
Dr. em Ciência da Religião



