
Se nem eu próprio me levo a sério, por que esperar que as pessoas, mesmo as amigas, tenham esse tipo de comportamento em relação a mim?
Ao tempo em que fui auxiliar de cartório, aprendiz de contabilidade, bancário, servidor da previdência, procurador federal e deputado federal, é claro que eu tinha que me esconder sob a capa de grave e circunspecto, embora procurando ser honesto e cumpridor de meus deveres, coisa que fui e sou, mas, uma vez aposentado, que necessidade eu tenho em ser levado a sério, sobretudo porque virei contador de causos e anedotas, em que a mentira é um elemento essencial, coisa que me facilita o fato de que nasci três dias depois do Dia da Mentira de 1955!?
Aliás, eu é que não consigo levar a sério as pessoas que dizem que jamais mentem, pois isso já é prova de que mentem, pois a mentira faz parte de nosso ser.
E também não levo a sério aqueles que se intitulam deuses, anjos, filósofos e todas essas funções ou ofícios em que a designação ou titulação não cabe a eles, mas às pessoas que os observam e neles creem existir algo de divino, angelical ou filosófico. Com efeito, o Filósofo com F maiúsculo, Sócrates, jurava que só sabia que nada sabia!
Mas a fogueira das vaidades crepita desde o dia em que o mundo virou mundo, e a luta por honrarias, títulos, medalhas, diplomas e o escambau é para muitos mais importante do que a própria luta pela vida, ou que apenas três coisas são essenciais à vida – comer, beber e fornicar – segundo cravou com muita propriedade outro maiúsculo, Filósofo chamado Schopenhauer.
Daqui mil anos, caso a humanidade não seja extinta pelo Trump e áulicos seus, feito Bolsonaro, um ou dois dos oito bilhões de homens e mulheres ora viventes serão lembrados, e medíocres feito eu, correm o risco de serem esquecidos assim que velados e enterrados.
Alguns até viram nome de rua, mas há ruas, avenidas, praças, cidades e até países que mudam de nome de vez em quando, feito Istambul que já foi Constantinopla, São Petersburgo que já foi Leningrado e Petrogrado, Volgogrado que já foi Stalingrado, Ho Chi Min que já foi Saigon, José Gonçalves de Minas que já foi Gangorras, Couto de Magalhães que já foi Rio Manso, Teófilo Otoni que já foi Filadélfia das Minas Novas, Tiradentes que já foi São José Del Rey, além de muitos outros exemplos da finitude de certas homenagens.
É como dizia o meu irmão Felipe Mota, ex-prefeito de Minas Novas, sobre a ideia de um seu puxa-saco de lhe tornar uma estátua no centro da cidade:
− “Deus que me livre, pois estátuas só servem para cachorro mijar no pé da gente e pombos cagarem em nossa cabeça! Tô fora!”
Carlos Mota Coelho é Escritor. Foi Deputado Federal e Procurador Federal. Autor de vários livros.



