
Quando se fala sobre o poderio das ligas do futebol europeu alguém pode indagar o seguinte: entre as cinco ligas mais fortes do mundo (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França), é possível considerar as seleções da Inglaterra, Espanha e França como as favoritas para a conquista da Copa, que começa em menos de quatro meses?
Em futebol, principalmente quando se trata de Copa do Mundo, não aprecio muito a expressão “favorito”. Dá a impressão de que não há mais ninguém competindo. Ou que o resto é zebra. Prefiro entender que as três seleções figuram entre as cotadas, bem avaliadas. E são, mesmo, seleções do mais alto nível. Contudo, há outras bem fortes
Não se pode esquecer, nunca, de seleções como a da Argentina, última campeã e com um grupo de ótimos jogadores; de Portugal, com sua equipe repleta de craques; da Alemanha, sempre forte.
E também da Seleção Brasileira que, apesar do crédito internacional diluído pelos mais de 20 anos sem conquistar um Mundial, está hoje sob o comando de um treinador (Carlo Ancelotti) de renome internacional e que também levará para a competição grandes craques. E outro detalhe: em uma Copa do Mundo, que pela primeira vez terá 48 seleções, fazer previsões não é tarefa nada fácil.
O interessante, contudo, é quando se relaciona o poderio e a segurança na gestão das ligas nacionais europeias (que são formadas e gerenciadas pelos clubes), com a questão das seleções, que são de responsabilidade das federações de futebol de cada país (equivalentes à nossa CBF).
A seleção nacional, naturalmente com os melhores astros do país, tentará exibir na Copa do Mundo o vitorioso e intenso padrão técnico/tático, que é comum nos clubes locais. Mas, a sobrevivência da Liga Nacional (que é dos clubes) não sofrerá nenhum terremoto, nenhum dano, caso a seleção do país seja eliminada em alguma fase da Copa.
Vamos ilustrar a questão com o caso brasileiro. Aqui, Campeonato Brasileiro e Seleção Brasileira (entre outras competições e tarefas) são de responsabilidade única da CBF. Se perder a Copa, tudo aqui vira um inferno. Lá é diferente. Campeonato nacional é com as ligas. Seleção é problema das federações.
Como exemplo, vamos citar a liga mais poderosa do mundo, a inglesa. A Premier League (Football Association Premier League Ltd), é uma corporação pertencente a 20 clubes membros e cada clube é acionista. Eles escolhem um presidente, um diretor executivo e ainda um Conselho Diretor para supervisionar as operações diárias.
A entidade é a organizadora do campeonato nacional (Premier League), responsável pela competição, seu regulamento e pela gestão centralizada dos direitos de transmissão e outros ganhos comerciais. É a mais abonada do mundo e seu valor de mercado, segundo levantamento de 2025, é de 11,77 bilhões de euros (equivalente a mais de 71 bilhões de reais).
Na temporada 2024/25, somente as taxas de direitos de transmissão por TV da Premier League foram calculadas em 3,4 bilhões de euros (equivalentes a 21 bilhões de reais). O valor total de venda de direitos no período de três anos (2022 a 2025) foi de aproximadamente 12,85 bilhões de dólares (equivalente a quase 67 bilhões de reais).
Os clubes recebem prêmios valiosos da Liga. O Liverpool, último campeão nacional (temporada 2024/25, recebeu como prêmio pelo título cerca de 180 milhões de libras (equivalentes a 1,2 bilhão de reais), afora outros prêmios e rendas (Champions League, comerciais próprios). Na Espanha, o Real Madrid, só pelo título nacional de 2025, recebeu da LaLiga o equivalente a 800 milhões de reais. Também campeão da Champions, o Real embolsou o equivalente a 500 milhões de reais.
Diante desses números, é válido destacar o seguinte: Flamengo, gigante do futebol brasileiro e maior clube da América do Sul, recebeu da CBF em dezembro último e pelo título do Brasileirão, o prêmio de… R$ 50 milhões. Pelo título da Copa Libertadores o prêmio foi de… R$ 183 milhões.
Nem sempre é válido fazer comparações, ainda mais em relação a gigantes do futebol europeu. Mas, entre gigantes (de lá e de cá), vale. E vale tão somente para lembrar como a desunião entre nossos clubes e a falta de uma autêntica liga nacional seguem deixando o futebol brasileiro no atraso.
Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor



