
Os braços fortes, com as mãos firmes no cabo de uma vassoura de alecrim na manhã fria de outono, movimentavam as folhas secas caídas das árvores; tudo era juntado e colocado em uma carrocinha.
Com as mãos, arrancava as tiriricas, pés-de-galinha, musgos e outras espécies que nasciam na beira da calçada. Tudo aquilo não parecia um serviço: era um ritual, um modo de celebrar a vida. Um detalhe chamava a atenção: não arrancava nenhuma flor que surgia entre as pedras.
Era um orgulho, um prazer, ter a profissão de gari — ser varredeira, como se falava noutros tempos.
Deusa. Isso mesmo. Seu pai, Joaquim, e sua mãe, Tereza, assim batizaram a linda menina que cresceu como uma divindade. Seu pai, varredor por muito tempo, cuidava das ruas de Visconde do Rio Branco com carinho. Tudo era limpo; o pequeno mato que encontrava entre as pedras fazia questão de arrancar com a mão, caso a enxada “três libras” que usava não fosse capaz de resolver.
Mesmo nos morros, lá estava ele, firme e forte, cumprindo sua missão.
Deusa, ainda criança, fazia questão de seguir o pai na labuta. Tinha muito orgulho dele, pois deixava tudo impecável. Joaquim tinha um carinho enorme pela filha e sempre dividia o pão com ela; muitas vezes, deixava de comer para satisfazer sua “menina-flor“.
Deusa, junto ao pai, sentia-se uma flor de calçada, de tanto que era cuidada e admirada. Ser varredeira lhe traz as boas lembranças do zelo de Joaquim. Fazer o que o pai fazia não é, para ela, um serviço, mas uma missão.
Salve a nossa Deusa Flor!
Aldeir Ferraz tem, dentre seus atributos, ser Poeta e Autor de Ubá/MG



