Destino de Bárbara (por Lindolfo Paoliello)

qualquer que seja a duração de nossa vida ela é completa [...]

Roselle a vécu ce que vivent les roses:
L`espace d´un matin.

Ao imprimir esse verso de uma ode do poeta François de Malherbe ao amigo Dupérier sobre a morte de sua filha, o tipógrafo errou. E o verso saiu assim:

Rose, elle a vécu ce que vivent les roses
L´espace d´um matin

Não fora o erro do tipógrafo e eu não poderia desenvolver meu tema a partir desse verso que ele tornou impessoal e que tanto serviu para que o poeta reverenciasse a filha do amigo como me vale agora para que, com alguma poesia, possa eu falar de Bárbara que, como uma rosa, viveu o que vivem as rosas. O espaço de uma manhã.

É intrigante como, às vezes, para entender a vida, temos que voltar a ser crianças. Lembrar que plantas, bichinhos e pessoas nascem, crescem e morrem e que pode ocorrer de morrerem antes de crescer. E que, então, não é possível, como na nossa infância, alguém fazer simplesmente aparecer outra planta, bichinho ou companheiro para substituir o que se foi.

Torna-se questão de refletir que qualquer que seja a duração de nossa vida ela é completa, desde que entendamos que sua utilidade não está na duração e sim no emprego que lhe demos.

De Bárbara bem se poderia dizer que foi feliz, entre tanto carinho, tamanho zelo, tanto amor. Foi feliz, certamente, pelo que era, que só pode ser feliz um pequeno ser dotado de tanta exuberância de vida, tanta beleza.

Deus bem poderia tê-la deixado ficar. Seria então, com certeza, uma bela mulher, como já se antevia na criança. Mas então já não seria rosa, seria talvez margarida, violeta, malva, que sabe um cronista de plantas? Procuro apenas referir-me a uma flor que dure mais, seja menos frágil.

Bárbara, porém, viveu o que vivem as rosas. O espaço de uma manhã. No entanto, sua existência foi marcante, ainda que breve. Como as rosas, fez com que as pessoas se distraíssem por alguns segundos em seu caminho. Induziu-nos a prestar atenção ao que acontece a nós mesmos enquanto lidamos com nossos filhos. Deu-nos oportunidade de ver como é incrível a tendência das crianças ao desenvolvimento e do adulto à estagnação; lembrou-nos que a gente cresce, às vezes, com as crianças.

Bárbara viveu o que vivem as rosas. O espaço de uma manhã. E cumpriu seu destino de rosa, que é o de mostrar às pessoas que existe o belo, E que o belo pode ser eterno, como uma sinfonia ou uma catedral. Mas pode ser às vezes frágil e efêmero, como são as flores, as rosas, nossos filhos.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.

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