
Palavra de honra que quando eu estiver em disponibilidade, quer dizer: com tempo e dinheiro no bolso, vou me dedicar ao estudo do discurso político e o momento, tratando da variação da ênfase e da prioridade de determinados temas nas propostas dos candidatos, antes e depois das eleições.
Farto material poderia ser colhido, por exemplo, sobre as eleições deste ano, de modo a nos permitir verificar, agora ou daqui a pouco, se o deputado Fulano, o senador Sicrano, ou o governador e o presidente Beltrano se mantém fiel à sua plataforma como candidato ou se uma amnésia o fez esquecer seus compromissos.
Se não, é possível que se tornem maneirosos, prudentes, cautelosos no agir e no falar. E quem quiser entender a quantas anda o pensamento do seu candidato, deve se tornar doutor em linguística e especialista em linguagem figurada.
Aconselha-se dedicada leitura da obra “Frases Feitas”, do mestre João Ribeiro, na qual o leitor ficará sabendo, com todos os “ff” e “rr”, o significado de expressões como “em tempo de figos não há amigos”, “amarrar cães com linguiça” e “dar-se por achado”. Mais interessante ainda: vai conhecer a origem dessas expressões e descobrir, deliciado, que “dar às de Vila Diogo” se refere às calças do próprio, quer dizer: de alguém chamado Vila Diogo, que as perdeu ao fugir precipitadamente de algum perigo ou afronta. E poderá aprofundar esse interessante conhecimento, aprendendo que “nem chus nem bus” equivale a não dizer palavra, guardar silêncio absoluto, e que essa expressão poderá aparecer sob a variante “nem chus nem mus” que, por sua vez, é sinônima de “não tuge nem muge”. Não é bacaninha?
Estará assim o leitor preparado para assumir posição especial no campo das ciências políticas, situando-se entre os poucos capazes de decifrar entrevistas como esta:
– O que o senhor tem a dizer sobre os comentários a respeito da escolha de seus auxiliares?
– Em tempo de figos não há amigos.
– O senhor há de reconhecer que tem havido críticas…
– Fazem do céu cebola.
– O senhor é pré-candidato a presidente da República?
– Não ponho os pés em rama verde.
– O que tem a dizer sobre a situação do orçamento?
– Aqui a porca torce o rabo.
– Acredita ser capaz de atrair mais verbas?
– Enquanto o diabo esfrega o olho…
– É possível governar sem dinheiro?
– Mais vale um gosto que quatro vinténs.
– Como se sente quando seu nome é lembrado para a presidência da República?
– Não me dou por achado.
– Para encerrar: o que tem a dizer sobre um Poder sobressair-se aos demais?
– Nem chus nem bus.
Lindolfo Paoliello é Cronista, Autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal Amadas.



