Carnaval além da folia (por Danielle Balieiro Amorim)

Enquanto o Brasil se veste de brilho e prepara seu corpo para a grande travessia da folia, proponho um desvio. Um olhar que não busca apenas o onde, mas o [...]

Enquanto o Brasil se veste de brilho e prepara seu corpo para a grande travessia da folia, proponho um desvio. Um olhar que não busca apenas o onde, mas o porquê. Por que, afinal, nos entregamos a esse êxtase coletivo ano após ano? Para além dos mapas turísticos e das agendas de bloquinhos, há uma geografia mais íntima a ser explorada: a do nosso próprio bem-estar.

Sob o estrondo dos tambores e o manto coletivo da festa, um movimento silencioso — porém profundamente ritmado — ganha corpo. É a percepção de que o Carnaval pode ser menos uma fuga e mais um encontro. Um encontro terapêutico, ancestral e urgente consigo mesmo, mediado pelo corpo que dança e pelo coro que canta. Num tempo esgotado de telas e individualismos, a maior festa popular brasileira se ergue como sua antítese mais luminosa: uma terapia coletiva ao ar livre, onde a receita é composta de suor, sincronia e alegria bruta.

A neurociência confirma o que o corpo já sabe: dançar libera torrentes de endorfinas, esses analgésicos naturais da alma. Mas a magia vai além da química. É no sincronismo rítmico — quando milhares de corpos pulam como um só, guiados pelo mesmo baixo — que reside um dos maiores milagres da folia. Esse momento de uníssono físico dissolve, ainda que brevemente, a barreira do um. Gera um pertencimento visceral, um antídoto potente contra a solidão que nos assombra nos demais dias do ano.

E assim, destinos que entendem essa fome por significado começam a oferecer rotas que vão além do pular por pular. Não são mais apenas circuitos; são percursos de sentido.

Em Salvador, surgem as “imersões de axé” — experiências que combinam a energia dos trios elétricos com aulas de dança afro, rodas de conversa sobre a ancestralidade nagô e práticas respiratórias que preparam o corpo não para a exaustão, mas para a plenitude. É a folia com raiz e consciência.

Em Recife e Olinda, o frevo é resgatado não só como espetáculo, mas como prática de libertação. Oficinas ensinam que aquele gingado não é apenas acrobacia; é a ponta do pé riscando no chão um convite para soltar amarras físicas e emocionais. É uma dança que, literalmente, levanta o espírito.

No Sudeste, blocos de samba adotam uma vibe wellness. São cortejos diurnos, pensados para famílias, que começam com alongamentos guiados e oficinas de percussão para iniciantes. O objetivo é claro: diminuir a ansiedade do “não sei sambar” e substituí-la pela pura alegria do participar. A folia se torna inclusiva, acolhedora.

Portanto, neste Carnaval que se aproxima, talvez valha a pena planejar menos a fantasia e mais a intenção. Que ritmo ressoa com a sua alma neste momento? Um maracatu enraizado, um axé expansivo, um samba acolhedor?

Permita-se dançar sem a tirania do julgamento — o seu ou dos outros. Mergulhe na energia coletiva não como espectador, mas como parte vital do organismo que pulsa. A maior festa do país, em sua essência mais pura, é um remédio ancestral. Um bálsamo feito de batidas compassadas, de corpos que se entregam, de sorrisos trocados com estranhos.

A receita, afinal, é simples e está ao alcance de todos: sinta a batida no peito, deixe o fluxo te levar e conecte-se, sem reservas, com a alegria fugidia e generosa que habita o ar.

*Artigo originalmente publicado no Diário de Taubaté e Região

Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.

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