Baratas, bolhas e as guerras (por Carlos Primo Braga)

O conflito iniciado (28/02) com os ataques dos EUA e Israel contra o Irã continua a [...]

O conflito iniciado (28/02) com os ataques dos EUA e Israel contra o Irã continua a dominar o cenário geopolítico global. Como tipicamente ocorre em crises geopolíticas, o impacto financeiro desses eventos é significativamente influenciado pelo comportamento de um preço crítico para a economia global: o preço de energia. Em 20 de março, o preço do barril de Brent estava sendo negociado por volta de US$108 em contraste ao valor de US$61 que prevalecia ao final de 2025.

Em 1973, em meio a Guerra do Yom Kippur (6 a 23/10), vários países da OPEP, sob a liderança da Arábia Saudita, impuseram um embargo inicial às exportações de petróleo para os EUA, Canadá, Japão, Reino Unido, e Holanda. Como consequência o preço do barril de petróleo aumentou cerca de 300% (de US$3 para US$12) entre 10/1973 e 3/1974, quando o embargo foi suspenso.

Estamos ainda bem distantes de um impacto semelhante no preço de energia na atualidade. Além disso, as implicações para diferentes países são distintas do observado no contexto do “primeiro choque do petróleo”. De uma maneira geral, países hoje têm economias bem mais eficientes com respeito ao uso de energia fóssil. Mas os países asiáticos (com relação ao petróleo) e os países europeus (com relação ao gás natural liquefeito) já estão enfrentando um choque significativo.

No caso dos EUA, hoje o maior produtor global de petróleo, o impacto é ainda incipiente. O aumento no preço de energia tem um efeito positivo para os produtores nos EUA. As refinarias americanas, porém, tipicamente não têm a capacidade necessária para processar o petróleo leve produzido na maioria dos poços dos EUA. Como consequência, embora o país seja um exportador líquido de petróleo, ele precisa importar petróleo pesado para viabilizar o refino do óleo na quantidade demandada. E o choque atual já vem se traduzindo em aumentos nos preços de gasolina e diesel pagos pelos consumidores.

No momento, estimativas preliminares sugerem uma queda de 0,3% no crescimento global (reduzindo de 3,3% para 3% previsões de crescimento em 2026). Mas países como o Catar e o Kuwait podem ter um impacto negativo de até 14% em suas economias. Evidentemente as dimensões finais desses impactos dependerão da duração do conflito e dos danos à estrutura produtiva dos países do Golfo Pérsico

Essa última semana foi caracterizada por ataques à infraestrutura energética do Irã e retaliações iranianas, impactando a infraestrutura produtiva de vários países da região. Há estimativas que cerca de 39 refinarias e campos de gás natural já tenham sido afetados por bombardeios em nove países da região. O ataque feito por Israel ao campo de gás de South Pars no Irã nessa última quarta-feira gerou sinais de alerta para as externalidades potenciais do conflito no longo-prazo.

O Irã continua a controlar o tráfico naval pelo Estreito de Ormuz, afetando significativamente o comércio global de energia. A expectativa, porém, é que esse controle não perdure indefinidamente. Mas mesmo se a navegação pelo estreito for normalizada no médio prazo, o impacto nas estruturas produtivas da região pode se traduzir em preços elevados de energia no pós-guerra.

O conflito também pode vir a ter um impacto humanitário substantivo. Ataques às usinas de dessalinização de água e disrupções no transporte marítimo impactam a segurança alimentar da região. É também importante assinalar que cerca de um-terço dos fertilizantes transportados por via marítima transitam pelo Estreito de Ormuz. O preço de fertilizantes já aumentou quase 30% desde o início da guerra, afetando países produtores de commodities agrícolas como o Brasil.

Outros confrontos geopolíticos continuarão a afetar a economia global em 2026. A guerra no leste europeu, por exemplo, entra no seu quarto ano sem perspectivas de uma solução iminente. E as decisões recentes da administração Trump no sentido de flexibilizar as sanções contra a Rússia, de forma a minorar o impacto sobre a oferta global de petróleo, se traduzem em um “presente” financeiro relevante para o Sr. Putin.

A despeito desses choques geopolíticos os mercados financeiros nos EUA têm operado sem correções dramáticas até o momento. Por volta de 20/03/2026, o índice S&P500 havia caído 5,1% em comparação com o início do ano e o índice da NASDAQ tinha caído 6,83% no mesmo período.

A análise de diferentes cenários para a evolução da guerra, efetuada na plataforma https://lab.globaltradealert.org/scenarios, sugere que a probabilidade dos EUA declarar vitória de forma unilateral, sem mudança de regime no Irã, nas próximas 4 semanas é de apenas 11%. Por outro lado, a probabilidade de uma expansão do conflito na região no mesmo período, com um envolvimento mais direto dos outros países do Golfo, é calculada em 41%. Além disso, aumentam as especulações sobre o interesse dos EUA em ocupar a ilha de Kharg, que é fundamental para as exportações iranianas de hidrocarbonetos. Em síntese, as chances de uma rápida resolução para o conflito são limitadas.

As implicações futuras para mercados financeiros merecem atenção. Uma regra relevante para mercados financeiros é de que eles reagem negativamente quando políticas fiscais expansionistas colidem com choques inesperados como os que estão sendo gerados pela atual crise geopolítica. A economia dos EUA tem operado com um desempenho superior ao das demais economias do G7. Sinais preocupantes, porém, vêm surgindo com uma frequência crescente. Os mercados futuros indicam que expectativas de cortes de taxas de juros por banco centrais nos próximos meses foram reduzidas. As implicações desse cenário para as condições de acesso a crédito podem ser significativas.

As operações de crédito privado por empresas como Apollo Global Management, Blackstone, Blue Owl Capital e Ares Management vêm também recebendo uma atenção crescente. Essas operações cresceram de forma dramática após a crise financeira global e hoje esse setor administra cerca de US$ 3,5 trilhões. Cabe observar que as firmas do setor não têm que respeitar as restrições de capital próprio impostas aos bancos tradicionais. Essas operações financeiras, cujos termos são negociados de forma privada com transparência limitada, frequentemente envolvem operações de alto risco.

Em outubro do ano passado, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, se referiu às falências observadas de empresas como Tricolor (que operava no setor de empréstimos subprime para carros) e First Brands Group (operando no setor de autopeças), utilizando a seguinte metáfora: “… I probably shouldn’t say this, but when you see one cockroach, there are probably more.”

As “baratas” mencionadas por Dimon no contexto de operações de crédito privado se somam a preocupações associadas com o financiamento de investimentos em inteligência artificial (IA). “Hyperscalers” nos EUA, empresas como Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta, devem investir cerca US$ 650 bilhões em infraestrutura (data centers, servers, redes, chips…) relacionada com IA em 2026. A questão de uma eventual “bolha” especulativa com relação a IA é um dos temas mais debatidos na atualidade.

Esse debate tipicamente explora dois ângulos. O primeiro diz respeito até que ponto a demanda por serviços de IA excede a oferta desses serviços. Se a resposta for negativa, a implicação seria que uma desaceleração futura desse setor é algo inevitável e a viabilidade financeira desses investimentos se tornaria questionável. As implicações sistêmicas seriam significativas na medida em que as receitas de empresas do setor têm um caráter “circular” já que em muitos casos refletem empresas de IA interagindo entre si.

Em segundo lugar, existe uma preocupação crescente sobre o impacto da IA em segmentos do mercado de trabalho. Modelos como o GPT-5.3 Codex da OpenAI e o Opus 4.6 da Claude/Anthropic estão afetando o setor de software de forma significativa. Essas plataformas têm a capacidade operar de forma autônoma e podem revolucionar o setor de engenharia de software. As implicações para o mercado de trabalho (particularmente para “entry-level positions”) podem ser dramáticas. Além disso, os problemas do setor têm implicações para a operação de fundos de crédito privado, que costumam ter uma exposição significativa a empresas de software.

A interação entre potenciais “bolhas” e eventuais infestações de “baratas”, em paralelo com conflitos geopolíticos, não permite uma dose elevada de otimismo para a economia global em 2026. Nouriel Roubini, conhecido como o Dr. Doom por suas perspectivas pessimistas, no entanto, mantem uma visão otimista para a economia dos EUA. Ele argumenta que o “presidente pode ser o Mickey Mouse que o país irá bem”. Só resta torcer para que ele esteja certo dada a importância do desempenho da economia dos EUA para a economia global.

Carlos Primo Braga é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Autor.

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