
Em uma roda de conversa conheci a história do Ventura, o lendário cocheiro de um Hospital lá pelos idos de 1950, é uma dessas pérolas que merecem moldura.
No tempo em que quase não existia funerária, Ventura era o último anfitrião que comandava uma carruagem impecável, puxada por cavalos brancos de crinas escovadas que pareciam prontos para um desfile de Sete de Setembro, e não para um cortejo fúnebre.
Era a “viagem final“. mas o problema não era o destino, mas o trajeto até o desembarque.
Naquela época, o serviço do Ventura era na força, não tinha maca, elevador ou carrinho hidráulico. Seu equipamento de trabalho eram os próprios ombros e um par de braços fortes.
O protocolo era simples: enrolava-se o falecido no lençol, jogava-se o “pacote” nas costas e descia-se a escada de madeira. Toc, toc, toc… O som da madeira rangendo nos corredores era o aviso fúnebre oficial da cidade.
Quando o passo do Ventura ecoava, os pacientes prendiam a respiração e rezavam para não serem o próximo item da lista.
Certo dia, o Dr. Jeová − médico respeitadíssimo, cuja palavra valia mais que bula de remédio chamou o fiel escudeiro:
− “Ventura, meu caro, perdemos um na enfermaria. Terceiro quarto à esquerda. Pode cumprir sua missão”.
Ventura, homem de hierarquia e pouco papo, ajustou o passo. Lá foi ele, subindo as escadas com a autoridade de quem vai buscar uma encomenda.
O hospital silenciou. No corredor da enfermaria, o cocheiro deu um leve “tilt”. Em vez de dobrar à esquerda, o destino o levou para a porta da direita.
Entrou, viu um sujeito deitado, imóvel, olhos fechados e pálido como uma ceroula de batizado.
− “É este“, pensou Ventura.
Sem cerimônia, aplicou a técnica do “embrulho de presente“: enrolou o vivente no lençol com a destreza de quem faz um charuto, içou o cidadão nas costas e tomou o rumo da saída.
No meio do corredor, a carga começou a apresentar um comportamento atípico. Ventura sentiu uns soquinhos leves nas costas. Coisa pouca, como se o defunto estivesse tentando acertar o passo.
De repente, uma voz vinda de dentro do lençol, fina e trêmula como um rádio de pilha sem bateria, protestou:
− “Oh, Sr. Ventura… Me larga, Sr. Ventura… Eu tô vivo, não me leva não”!
Qualquer outro teria jogado o fardo pro alto. Mas Ventura era um profissional dedicado e, acima de tudo, um homem que respeitava a ciência. Parou o passo, deu uma ajeitada na carga para não forçar a coluna e respondeu com uma calma de dar inveja:
− “Vivo? Uai, cê tá querendo saber mais do que o Doutor Jeová”?
E seguiu o caminho. Afinal, se o doutor disse que o homem tinha falecido, quem era o paciente, um leigo no assunto, para querer dar um diagnóstico contrário no meio do corredor?
Aldeir Ferraz tem, dentre seus atributos, ser Poeta e Autor em Ubá/MG



