Arbitragem com olhos de águia (por Erasmo Angelo)

Começa a vigorar neste 1º de março o projeto que a CBF aponta como o da profissionalização da arbitragem no futebol brasileiro, medida válida, em princípio, somente para [...]


Começa a vigorar neste 1º de março o projeto que a CBF aponta como o da profissionalização da arbitragem no futebol brasileiro, medida válida, em princípio, somente para a Série A. A dedicação ao trabalho não tem exclusividade obrigatória, mas a entidade informa que vai pedir a cada árbitro prioridade ao serviço.

Para o cumprimento da tarefa, que objetiva dar segurança profissional aos juízes de futebol e aprimorar a qualidade técnica na tarefa que executam em campo, foram selecionados pela CBF 20 árbitros principais, 40 assistentes e 12 árbitros para o VAR. Os contratos de trabalho foram assinados neste fevereiro.

A Confederação preferiu não divulgar valores da remuneração, mas haverá diferenças entre o árbitro FIFA e a CBF. O que se divulgou é que os contratados terão, em média, vencimentos de R$ 13 mil por mês, mas os árbitros principais, os 20 indicados, ganharão mais de R$ 30 mil. Como acontece hoje, eles ainda vão receber por jogo apitado, além de bônus por desempenho.

A Confederação promete que todos eles vão enfrentar rígido monitoramento, através de reuniões mensais, acompanhamento tecnológico (kit arbitragem), avaliação trimestral na qual a reprovação implicará afastamento por três meses e até rescisão contratual unilateral por parte da CBF, no caso de reincidência em falhas. Outra: ficar na “geladeira” significa afastamento por 28 dias por erro grave em jogo e o retorno ao apito ocorrerá em partidas de divisão inferior (séries B, C, D).

Todas as medidas são extremamente importantes e há que se louvar o espírito reformista da nova direção da CBF, que surpreende pela relevância das reformulações que vem implantando no futebol brasileiro.

Apesar de tão elogiado esforço, o que se tem visto até aqui, nestes quase (e apenas) 60 dias da temporada 2026, é o reiterado volume de queixas severas contra as arbitragens, seja no Brasileirão, de poucas rodadas disputadas, como também nos campeonatos estaduais, felizmente já quase no fim.

Na lista dos 20 principais árbitros selecionados pela CBF para a Série A nacional, no seu projeto de profissionalização, está incluído o nome de Paulo Zanovelli, pivô, há dias e no Estádio Independência em BH, do mais polêmico caso de arbitragem deste começo de temporada e com grande repercussão.

Vale lembrar o que ocorreu. Em jogo decisivo de classificação às semifinais do estadual mineiro, entre América (que jogava em casa) e o North, da cidade de Montes Claros, o time do interior fez um gol (1 a 0), resultado que possivelmente lhe daria a classificação pois o gol foi marcado aos 49 min da fase final, já nos acréscimos.

Três minutos depois (aos 52 min), em lance de muitas dúvidas e sob protestos do North, o árbitro, quem sabe com “visão de águia”, viu um pênalti do goleiro de Montes Claros contra o jogador do América. Após exaltadas discussões, o pênalti foi cobrado e o goleiro do North fez incrível defesa, certamente para delírio de toda Montes Claros, crente que a classificação estava garantida.

Mas…, mas, eis que o árbitro e o pessoal do VAR, com uma “precisão” raramente vista no futebol brasileiro, indicam que houve invasão da área por jogadores, o que a regra não permite. E o juiz manda repetir a cobrança de pênalti, para revolta geral do North e, certamente, também de toda Montes Claros. Cobrado novamente o pênalti, gol do América.

E a pendenga não acaba aí. O juiz Zanovelli queria mais jogo. E mais confusão e também mais dúvidas. Aos 61 min, dois minutos após a duvidosa e polêmica penalidade, há um choque entre jogadores dos dois times na área do North. E o que fez o juiz?  Outra vez com sua “visão de águia”, marca mais um pênalti contra o time do interior. Protestos inúteis. Outro gol e o América, de quase desclassificado, ganhou a vaga.

Como Zanovelli é árbitro FIFA e selecionado pela CBF entre os 20 especiais para apitar o Brasileirão, vamos ver se a sua “visão de águia” funcionará no campeonato nacional com a perfeita acuidade visual que ele mostrou nos pênaltis marcados no polêmico jogo do estadual mineiro, em partida na qual as dúvidas técnicas sobre sua atuação superaram os possíveis acertos.

E tem mais. Na última quarta-feira (25), no clássico Palmeiras (2) x Fluminense (1) pelo Brasileirão, ocorreu fato grave e bizarro. O Palmeiras, que havia dado a saída de bola para começar o jogo no primeiro tempo, também deu novamente a saída para começar o segundo tempo. O árbitro Felipe Fernandes/MG foi só advertido pela lambança. Por tantos fatos negativos e recorrentes, que já duram anos, a profissionalização da arbitragem brasileira segue com sérias dúvidas quanto ao seu êxito.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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