
Não há como subestimar os efeitos nocivos de certos boatos. Sobretudo, quando hoje sabemos que malévolas intrigas viralizam mais rápido do que as suas retratações. Ou seja, poucos ficam sabendo ser fake news o veneno a que alguém foi exposto.
Assuntos tão graves aparte, começo a perceber algo novo no YouTube. São novos filhotes da tecnologia. Está se generalizando algo que, à falta de outro nome, chamaria de “fake news light”. São vídeos que despertam a curiosidade e até podem transmitir uma mensagem aceitável, mas estão recheados de mentirinhas. Pecados veniais, diria-se. Não causam danos sérios. Mas, desacreditam o conteúdo.
Vejamos um primeiro exemplo. A médica Claire Whitmore tem uma série no YouTube, onde fala de diabetes. O conteúdo faz sentido: não diz absurdos e nem dá conselhos amalucados. A doutora é uma mulher muito bonita, classuda e bem produzida. Seu timbre de voz é impecável.
Como o vídeo é longo, comecei a notar que seu corpo não se movia. As mãos, sim. Porém, prestando atenção, repetiam a mesma sequência de movimentos. Presto mais atenção. A voz não muda de diapasão e não se observa um mínimo gaguejo, vacilação ou engano. Perfeito demais para nós, humanos imperfeitos! Busquei o seu nome no Google. Haviam duas. Uma não era médica e a outra, aposentada, tinha 96 anos. O ChatGTP confirmou que não existe uma médica ativa com esse nome. Aliás, por que falsificar um vídeo perfeitamente razoável no seu conteúdo?
Em outro caso similar, nas pausas entre falas, notei que a cara da “médica” dava uma tremida. Aí estava a assinatura da fraude.
Porém, quebrei cabeça e não decifrei o sentido de uma entrevista com Ben Hodges, general americano, ex-comandante da OTAN e hoje comentarista da guerra na Ucrânia. Ele refletia sobre as consequências dos ataques ucranianos, realizados no dia 9 de maio, aniversário da vitória soviética sobre a Alemanha nazista. Falava no seu estilo pausado e lógico. O que dizia fazia todo sentido. Mas, a cronologia tropeçava, pois ele comentava os danos dos ataques no dia 9. E, assisti ao vídeo no dia 8! Diante da incongruência, olhei com mais cuidado. A voz não mudava de timbre, era um discurso sem câmbios de tonalidade. A eletrônica não conseguia reproduzir o seu sotaque sulino. E, nas pausas, notei que se repetiam os mesmos movimentos da cabeça. Que é falso, não duvido. Mas por que?
Convido o leitor a decifrar as diabruras da IA na tela do seu computador. É divertido.
E, com efeito, a promiscuidade vai mais longe e é bem variada. Muito comum é o divórcio entre a narrativa dos vídeos e as imagens que a acompanha. Os que cuidam da parte visual parecem haver declarado sua independência de quem redige o texto. Ou então, grassa uma epidemia de preguiça de buscar boas imagens.
É o caso dos vídeos de guerra, em que a narrativa é totalmente desconjuntada das imagens. Ao falar de um general, aparece um outro. Ao falar de um país, aparece o inimigo. Ao falar de aviação, aparecem tanques. Até ficaria mais crível se a mensagem fosse ouvida pelo rádio.
Vejam outra linha de travessuras. A IA permite a feitura de vídeos muito simpáticos, recriando momentos e culturas diferentes. Tomando uma gravura antiga, branca e preta, a máquina a transforma em pessoas coloridas e se movimentando. Lindo o efeito. Tecnologia ideal para ensinar história, já que é simples e barata.
Em geral, os textos tendem a não cometer pecados sérios. Porém, os garimpadores de imagens, ou são preguiçosos, ou burros, ou pensam que assim são os seus espectadores. Que tal, uma alta autoridade do século XVIII, assinando um documento com caneta esferográfica? Ou, marcos de pedra dos navegadores portugueses, com textos em inglês? Deve haver abundância de imagens nesta língua, pois em vez de alemão ou português, nela estão os contratos para levar migrantes alemães a Pomerode. Constroem-se casas com tecnologias totalmente desconhecidas no local. Algumas ferramentas são usadas de cabeça para baixo.
Igual liberalidade se observa em documentários. Acabo de ver um, até curioso, sobre locais de acesso proibido no Estado de São Paulo. Perto do Ibirapuera, há uma instalação militar, totalmente fechada. Porém, um único edifício é descrito por imagens de três prédios diferentes – alguns nem sequer são brasileiros. Para ilustrar o isolamento, mostra-se um tapume. Mas, tem seus dizeres em inglês e o escudo dos Estados Unidos.
Ao falar de uma ilha no litoral de São Paulo, mostra-se um porto americano, durante o inverno, com passageiros encasacados embarcando. E a portaria do parque criado na ilha é ilustrada pela de um outro, com nome diferente. Dentre as fotos para ilustrar um parque ferroviário abandonado, muitas são de outros países.
O Governador Tarcísio de Freitas assina um documento importante. Mas, na foto, quem aparece é Bolsonaro. Fotos de outros países ilustram uma hidroelétrica de Cubatão. Para os trabalhos de sua construção, aparece uma obra no Amazonas (identificada como tal).
Um arquivo secreto de São Paulo é ilustrado por fotos onde tudo está escrito em inglês. E os supostos documentos do regime militar? São mostradas fotos portuguesas e espanholas.
E a voz? Será síntese eletrônica? O timbre é perfeito, a articulação impecável. Mas, qual paulista pronunciaria como paroxítona “cotia” ou “sambaquis”? E, descrevendo o primo do golfinho, qual locutor real falaria “bóto” em vez de “bôto”? O que é pior, ignorância da língua ou tecnologia capenga?
Travessuras inocentes, pois não? Impotentes para fazer ruir a República. Pecadilhos, diante das tóxicas fake news. Porém, estão degradando a credibilidade do que põem no ar. De outro prisma, a mentira me agride. Estão tentando me fazer de idiota. Estão desrespeitando o público. Como não sei o que mais fazer, apenas esbravejo.
Claudio de Moura Castro é Ph.D. em Economia pela Universidade de Vanderbilt. Foi Professor Visitante em várias Universidades, como Chicago, Genebra, Borgonha, FGV, Brasília. Foi Presidente da CAPES. Autor, Prêmio Jabuti.




