A Lenda e o Sapateiro (por Aldeir Ferraz)

Em Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata mineira, conheci Mauro Zoi, antigo sapateiro da cidade. [...]

Em Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata mineira, conheci Mauro Zoi, antigo sapateiro da cidade.

Encontrar Mauro ainda na sobriedade da manhã é ter a certeza de que haverá “causos” para mais de hora.

Naquele dia, contou ele que, em um amistoso de futebol no estádio da cidade, uma celebridade nacional se fez presente. Como zagueiro, Mauro recebeu a missão de marcá-lo:

— “Mauro, hoje você marca o Mané”.

Dizer isso para um defensor é como pedir para segurar um furacão com as mãos. O “Mané” em questão era ninguém menos que Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas, o homem que transformava zagueiros em estátuas de sal.

O Duelo de Gigantes (ou quase isso)

O jogo foi um festival de gols, mas o placar é o que menos importa. O que Mauro guarda na retina é o balé. Imagine a cena:

De um lado, o gênio que driblava até a própria sombra e chamava todo mundo de “João“. Do outro, o nosso bravo Mauro, cujas pernas — segundo ele mesmo — entraram em um estado de vibração digno de britadeira de obra pública.

Dizem que Garrincha não jogava bola; ele brincava de enganar o destino. Mauro tentava prever o bote, mas, quando percebia, o Mané já tinha ido “comprar pão na esquina” e voltado, enquanto os ouvidos do sapateiro eram bombardeados por uma sinfonia de “Olés!” vindos da arquibancada. Cada drible era um nó que se apertava na dignidade do nosso herói local.

O Título de Nobreza

Garrincha fez o dele, claro. Mas Mauro fez história. Em Visconde do Rio Branco, ele não é apenas o sapateiro; é o homem que sobreviveu ao furacão. É o cara que “tomou mil dribles” e, estranhamente, ostenta isso como se fosse um troféu.

No fundo, Mauro foi um privilegiado. Enquanto o mundo via Garrincha pela TV, ele viu o craque de tão perto que pôde sentir o vento da passagem do gênio. Ser humilhado por Garrincha não é derrota, é currículo. É a prova de que, por alguns minutos, o destino colocou um simples mortal no mesmo palco de um deus da bola.

Hoje, Mauro conserta sapatos, mas quem o vê caminhando pela cidade sabe que aquelas mãos que costuram couro já tentaram, um dia, costurar o espaço vazio deixado por um drible que ninguém jamais conseguiu explicar.

Aldeir Ferraz tem, dentre seus atributos, ser Poeta e Autor em Ubá/MG

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