A grande virada entre 1890 e 1930 não foi apenas urbana, foi também simbólica: com a Abolição (1888) e a República (1889), práticas antes marginalizadas ganham as ruas e passam a disputar espaço, identidade e poder cultural. O Carnaval deixa de ser apenas herança do entrudo português e se torna palco de afirmação afro-brasileira e popular.
• Rio de Janeiro:
O samba urbano nasce no início do século XX, fortemente influenciado pelas comunidades negras da Pequena África e por figuras como Tia Ciata. Em 1928 surge a primeira escola de samba, Deixa Falar, no bairro do Estácio. A partir daí, os desfiles organizados e competitivos moldam o modelo carioca que mais tarde se institucionaliza com a criação do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em 1984. É o primeiro Carnaval “moderno” claramente estruturado como espetáculo.
• Pernambuco (Recife e Olinda):
O frevo já existia no fim do século XIX, nas disputas entre bandas militares e capoeiras, mas se consolida entre 1900 e 1910 como símbolo local. Diferente do modelo competitivo do Rio, mantém forte caráter de rua, espontâneo e popular. O Galo da Madrugada, criado em 1978, se tornaria o maior bloco do mundo reforçando a lógica da multidão horizontal, não do desfile fechado.
• Bahia (Salvador):
O formato atual nasce nos anos 1950 com o trio elétrico de Dodô e Osmar, que eletrifica instrumentos e coloca a música sobre rodas. Décadas depois, artistas ampliam o alcance do axé. Diferente do Rio e de Pernambuco, aqui o centro é o artista e o circuito móvel, um Carnaval mais recente e profundamente ligado à indústria cultural.
• São Paulo:
As escolas surgem nas décadas de 1930–40, inspiradas no modelo carioca, mas a consolidação ocorre nos anos 1970 e ganha força com o Sambódromo do Anhembi (1991). Já os blocos de rua só explodem nos anos 2010, revelando uma cidade que redescobre o espaço público e transforma o Carnaval em fenômeno de massa tardio, porém vertiginoso.
• Maranhão e Norte/Nordeste em geral:
Nessas regiões, o Carnaval se mistura a tradições como o Bumba Meu Boi, ao tambor de crioula e a festas híbridas que não seguem modelo único. A identidade se forma de maneira difusa, menos institucionalizada e mais entrelaçada com ciclos festivos locais, o que desafia a ideia de um “padrão nacional”.
O Carnaval brasileiro evoluiu como espetáculo, resistência ou mercado? Talvez com os três, em proporções diferentes em cada território. É nessa tensão que reside sua inteligência histórica e sua permanente reinvenção..



