
Durante muito tempo, criar foi o diferencial. Saber escrever, desenhar, programar ou estruturar uma ideia era o que importava, o que fazia a diferença.
Havia um custo técnico, um investimento em aprendizado, uma espécie de barreira de entrada, e isso mudou rápido demais para muita gente perceber.
Hoje, a Inteligência Artificial escreve textos aceitáveis em segundos, gera imagens coerentes em minutos, produz código, ajuda até a estruturar projetos, coisas que até pouco tempo atrás, exigiam anos de experiência e/ou aprendizado.
Não é a excelência que é entregue, mas (muitas vezes) é o suficiente.
E, na maior parte dos contextos, o suficiente passa (e funciona).
O impacto disso não é o “fim do criador”. É o fim do criador médio.
A IA não eliminou a capacidade humana de criar.
Ela eliminou o valor econômico da média. Nunca foi tão fácil produzir algo que parece bom, organizado e convincente.
E nunca foi tão difícil saber se aquilo realmente presta.
Modelos de linguagem escrevem com fluidez, constroem argumentos lógicos, organizam ideias e fecham textos com segurança.
Mesmo quando o conteúdo é raso.
É o “lixo bem apresentado”.
É o “lero lero persuasivo”.
Quando a produção vira commodity, o valor se desloca.
E ele não vai para quem produz mais rápido, nem para quem publica mais.
Vai para quem consegue diferenciar.
Num mundo onde a IA cria texto, imagem e código sob demanda, o profissional mais caro não será o que faz, mas o que escolhe. O que lê com atenção. O que compara. O que percebe incoerências. O que sabe dizer “isso parece bom, mas não é”.
A excelência virou um problema de curadoria.
Demorei um pouco para perceber isso.
E curadoria não é um trabalho confortável. Ela exige repertório, tempo e, principalmente, disposição para ir contra o fluxo.
Exige questionar respostas prontas, mesmo quando elas vêm bem escritas. Exige desconfiar da fluidez excessiva. Exige esforço cognitivo.
Aqui está o ponto de contato com algo que venho alertando: o risco da sedação intelectual.
Quando tudo chega pronto, rápido e bem formatado, pensar passa a parecer ineficiente. Questionar vira perda de tempo. E aceitar respostas medianas se transforma em hábito.
A IA não cria esse comportamento sozinha, mas ela o amplifica de forma brutal.
Reprogramar o pensamento, nesse contexto, não é aprender a usar mais ferramentas. É reaprender a filtrar. A verificar. A sustentar julgamento próprio num ambiente inundado de conteúdo plausível.
O profissional humano que continua relevante não é o criador romântico, nem o executor compulsivo. É o curador. Aquele que entende o domínio o suficiente para reconhecer qualidade, contexto e consequência. Aquele que sabe quando algo está correto e quando apenas soa correto.
Criar continua importante.
O problema é quando qualquer coisa bem escrita já parece suficiente.
O trabalho que sobra é o de separar o que vale do que apenas ocupa espaço. E esse trabalho, pelo menos por enquanto, ainda não foi terceirizado com sucesso.
Talvez porque ele exija algo que a IA ainda não tem: responsabilidade pelo juízo que faz.
Daniel Branco
Ser humano, Economista
Empreendedor e Mentor
Especialista em IA Aplicada



