O Boteco, o divã e Rita (por Nestor de Oliveira)

Historiadores registram que antes, muito antes, de Freud, Jung ou Lacan, não existia a arte da cura mental pela psicologia ou psiquiatria, das [...]

Historiadores registram que antes, muito antes, de Freud, Jung ou Lacan, não existia a arte da cura mental pela psicologia ou psiquiatria, das loucuras, inseguranças, angústias, depressões, medos, fobias, dores de cotovelos e outras mais. Aos sofredores só um refúgio os acolhia e alentava – os botecos com suas mesas divãs. O secular boteco, o ombro de um amigo, uma dose a mais, uma poesia, uma música, uma doidivana da noite, um choro escondido eram os remédios que, em doses homeopáticas, salvavam almas perdidas, mentes sofridas e corações partidos. Confesso que frequentei e ainda frequento, estes tradicionais divãs democráticos, consultórios livres, territórios de liberdade, confissões públicas, farmácias e laboratórios onde tem remédios para alegrias e sofrimentos.

Um amigo, de copo e de truz (esta é nova), chamado J. Mariano, partilhou comigo e outros solitários da noite, de algumas sessões que se não nos curaram, ajudaram a minorar sofrimentos e partilhar alegrias, em torno de algumas confissões, com doses a mais ou a menos. Lembro bem de uma história que ele contava, de uma paixão recolhida, por uma moça chamada Rita. Brincávamos que Rita o tinha “roubado o sorriso, o violão e só não levou um tostão porque não tinha não.” No início J. não gostava, dizia-nos que sua dor de amor não poderia ser pilheria de botequim e começava, de novo, a contar sua história e paixão.

Rita era uma linda mulher, cabelos claros, longos, rosto, boca, olhos, perfeitos, um corpo ainda mais bonito. Dizia até que os homens prestavam mais atenção em seu corpo que em seu rosto. Foram namorados por muitos anos, ela muito jovem e ele também, faziam planos para o futuro, ele mais que ela. Romance de um tempo que os amassos, beijos e carinhos não passavam disso e por mais que ele tentasse Rita resistia. Sexo só depois do casamento, dizia ela. O fato é que o tempo passando, paixão aumentando, Rita resistindo, surge uma viagem para o Rio de Janeiro, um casamento de parente dela. Ele não foi. Quando Rita voltou estava diferente, era outra mulher, fria com ele e sem mais nem porque tomou a iniciativa de acabar com o namoro. Foi um baque, uma tragédia emocional, um susto de paixão, um juntar pedaços de um coração partido.

Passaram se anos, muitos anos e J. reencontrou Rita numa rua do Rio de Janeiro. O tempo tinha passado, para ela, de forma cruel, deixando marcas que lhe roubaram a beleza do rosto, do corpo, fazendo-a irreconhecível. Foi ela quem o chamou. Não foi só um encontro, foi o desmanchar de um sonho, de uma lembrança querida, que o fez lembrar imediatamente do ditado chinês: “Nunca volte ao lugar onde você foi feliz”. Rita tinha se casado com um carioca, teve filhos, ficou viúva, agora vivia sua solidão e lembranças de outros tempos, de mulher desejada, solicitada e muito paquerada. Queria porque queria que ele a acompanhasse ao seu apartamento, em Botafogo. Mais uma vez, ao contar a história, J. sorria ironicamente com um sorriso estranho, pura vingança. Para registrar o acontecido, deste desastre de amor, o Bob, companheiro de mesa, citou uma trova de Djalma Andrade – o inesquecível jornalista, pai de Odin e avô do amigo Eduardo Andrade – em homenagem a esta paixão:

“Tomo um susto, faço alarde,
Quando Rita me sorri,
Aos sessenta quer dar-me,
O que aos vinte lhe pedi.”

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

Compartilhe esse artigo: