
Flávio Bolsonaro trouxe o tom da sua campanha ao comparar o presidente Lula a um Opala velho:
− “Ele (Lula) é um produto vencido. Se comparar o Lula a um carro, ele é aquele Opala velho, câmbio manual, já foi bonito, mas hoje já não te leva a lugar nenhum e ainda bebe para caramba”.
Pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência revelam há muito tempo que variados eleitores afirmam que “Lula é mais do mesmo” e comparam o seu governo atual com os anteriores: “Os outros governos foram bons. Mas esse não”.
Lula pode ser posicionado como passado na eleição presidencial vindoura. É possível criar também entre os eleitores o sentimento de que o atual presidente da República “já deu o que tinha que dar”. Todavia, esta estratégia caberia se viesse pela voz de um candidato que dissesse ao eleitor que “o Brasil não aguenta mais Lula e nem Bolsonaro. Que ambos são passados. E que o Brasil merece futuro melhor”. Tarcísio de Freitas e Ratinho Júnior poderiam ter como estratégia de campanha a narrativa apresentada, contudo, eles têm medo de disputar uma eleição presidencial contra Lula sem estar associado ao bolsonarismo. E quando assim fazem, viram velhos, são atores do passado.
Flávio Bolsonaro será, assim como Lula, um candidato velho, “que já deu o que tinha que dar”, para parcela do eleitorado, pois ele é filho de Jair Bolsonaro. O grande desafio de Flávio Bolsonaro, o qual é competitivo, e deve estar no turno final da disputa presidencial, é representar um bolsonarismo renovado, ou seja: livre do radicalismo e do identitarismo de direita. Flávio Bolsonaro não pode atacar as instituições, as urnas eletrônicas e a democracia. Não pode colocar sob suspeita as eleições. Flávio não pode fazer uma campanha baseada enfaticamente em valores morais. Terá que saber debater com o Opala, desculpa, com o presidente Lula, sobre políticas sociais, geração de empregos, inflação, pareceria público-privada, multilateralismo, comércio internacional. Flávio está preparado para debater esses temas?
O bolsonarismo renovado trará votos para Flávio Bolsonaro? A rejeição estrutural do lulismo, a qual é consolidada, por isto é estrutural, garante competitividade para Flávio, principalmente em decorrência da ausência de um candidato que não seja nem Lula e nem Bolsonaro. Mas Flávio precisará de um pouco mais de votos para superar o presidente Lula. Portanto, ele precisa do bolsonarismo renovado.
É necessário renovar o bolsonarismo em razão do seu radicalismo e do identitarismo. O lulismo, por outro lado, não precisa ainda de renovação, em razão de que o debate econômico proposto pelo presidente Lula, mais as políticas sociais, seguem sendo pautas contemporâneas. O lulismo, ainda não é, portanto, um fenômeno defasado, assim como é o bolsonarismo autêntico.
O presidente Lula não é um Opala velho em virtude da ausência de um candidato à presidência da República que incorpore as agendas econômica e social do lulismo, tenha distância do identitarismo de esquerda e de direita, e se afaste do bolsonarismo. Enquanto esse candidato não surgir, o lulismo seguirá disputando eleições presidenciais em condições de obter vitórias sucessivas. Na eleição de 2022, a maioria dos eleitores optou pelo Opala velho em razão de que o outro carro quebrava muito, gerava confusão no trânsito, não funcionava direito e com estabilidade. Nem sempre o eleitor encontrava o carro velho em condições de levá-lo ao trabalho. Ao contrário do Opala, que apesar de beber muito, sempre estava em condições de levar o eleitor e seus familiares para algum lugar.
*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio
Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa Qualitativa & Estratégia



