Como aplicar o Conto do Vigário ao Problema de Newcomb (por Elson Pimentel)

Em artigo anterior em CAPABRASIL, “Newcomb e a tentação de trair”, discuti como um dilema coloca em xeque nosso caráter e [...]

Em artigo anterior em CAPABRASIL, “Newcomb e a tentação de trair”, discuti como um dilema coloca em xeque nosso caráter e resistência diante de um prazer imediato. Naquele problema, havia um ‘Preditor’ quase infalível que reconhecia nossos padrões de conduta e nos presenteava ou não com um grande prêmio.

Vamos alterar um pouco a situação: e se, do outro lado do dilema, estivesse um Preditor diferente, que não fosse a companheira fiel, nem a natureza, nem Deus, mas uma pessoa mal intencionada, enfim, um malandro profissional? Nesse caso, em vez de dinheiro, amor, gratidão, humildade ou até um senso de pertencimento a algo maior, correríamos o risco de receber uma grande dose de frustração e prejuízo.

De maneira cruel, tal personagem aplica diariamente o problema de Newcomb nas esquinas movimentadas das cidades, sob o nome popular de Conto do Vigário. A dinâmica é a mesma, mas com uma roupagem teatral: sai o pesquisador, entra o estelionatário; saem as caixas hipotéticas, entram o bilhete supostamente premiado e o falso pacote de dinheiro. A diferença é que, enquanto o filósofo desejava apenas testar a nossa racionalidade, o golpista quer testar, e levar, a carteira do ingênuo que cai no golpe.

A arte de fabricar o padrão

Para visualizar como o golpe se encaixa na teoria, vamos revisitar as duas caixas do problema original, agora ‘traduzidas’ para a linguagem do crime. A Caixa A transparente — aquela que contém R$ 1.000 visíveis no experimento — é, na vida real, o dinheiro que a vítima já possui: suas economias, o saque feito no banco, a quantia segura. Já a Caixa B opaca, que pode conter o milhão ou nada, converte-se na promessa fantástica do golpista: o prêmio da loteria não reclamado ou a herança esquecida.

O dilema de Newcomb ressurge intacto na calçada: para ganhar o grande prêmio (Caixa B), a vítima é convencida de que precisa abrir mão da segurança do que já tem (Caixa A), entregando-a como ‘garantia’ ou prova de merecimento. O vigarista, imitando o Preditor do paradoxo, aposta na ganância calculada de sua presa.

A astúcia está em criar uma falsa regra de causalidade: “Dê-me uma garantia, e eu lhe dou o prêmio”. O momento da verdade revela a diferença entre filosofia e crime: na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte, a caixa opaca — aquele pacote de jornal — está invariavelmente vazia. Mas o prejuízo vai além do zero: enquanto no laboratório a Caixa A permanece intacta, no golpe ela é ativamente subtraída. O dinheiro migra para o bolso do predador. O paradoxo resolve-se da pior forma: a previsão do golpista estava certa o tempo todo — não sobre o futuro, mas sobre a vulnerabilidade humana.

A armadilha digital

A mesma arquitetura do engano migrou dos jornais enrolados para as telas. O ‘guru do investimento’ digital também exige que você ‘renuncie’ à Caixa A (seu dinheiro real) para merecer a Caixa B (retorno prometido). A diferença é que o Preditor não é mais um sujeito na calçada, mas um algoritmo que processou milhares de dados seus e sabe exatamente qual promessa de Caixa B vai fazer você abrir mão da Caixa A. A escala industrializa o golpe, mas a engrenagem psicológica é idêntica: você entrega o certo para provar que merece o duvidoso.

Quando a realidade não é um paradoxo

Diferentemente da teoria dos jogos, onde o dilema termina com a abertura das caixas, na vida real o jogo termina quando o Preditor dobra a esquina.

Ao abrir a Caixa B, a vítima descobre que o vigarista não reconhecia padrões; ele os criava apenas para falsificar o jogo. No fim, fica sem o milhão, sem os mil reais e com a sensação de que sua racionalidade foi a ferramenta que arrombou o próprio cofre. A única forma de escapar é se recusar a provar virtude para um desconhecido. Porque, no momento em que tenta, o golpista já levou as duas caixas.

Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG

Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética

Compartilhe esse artigo: