A Era da Curadoria (ou o fim do criador médio) (por Daniel Branco)

Durante muito tempo, criar foi o diferencial. Saber escrever, desenhar, programar ou estruturar uma ideia era o que [...]

Durante muito tempo, criar foi o diferencial. Saber escrever, desenhar, programar ou estruturar uma ideia era o que importava, o que fazia a diferença.

Havia um custo técnico, um investimento em aprendizado, uma espécie de barreira de entrada, e isso mudou rápido demais para muita gente perceber.

Hoje, a Inteligência Artificial escreve textos aceitáveis em segundos, gera imagens coerentes em minutos, produz código, ajuda até a estruturar projetos, coisas que até pouco tempo atrás, exigiam anos de experiência e/ou aprendizado.

Não é a excelência que é entregue, mas (muitas vezes) é o suficiente.

E, na maior parte dos contextos, o suficiente passa (e funciona).

O impacto disso não é o “fim do criador”. É o fim do criador médio.

A IA não eliminou a capacidade humana de criar.

Ela eliminou o valor econômico da média. Nunca foi tão fácil produzir algo que parece bom, organizado e convincente.

E nunca foi tão difícil saber se aquilo realmente presta.

Modelos de linguagem escrevem com fluidez, constroem argumentos lógicos, organizam ideias e fecham textos com segurança.

Mesmo quando o conteúdo é raso.

É o “lixo bem apresentado”.
É o “lero lero persuasivo”.

Quando a produção vira commodity, o valor se desloca.
E ele não vai para quem produz mais rápido, nem para quem publica mais.

Vai para quem consegue diferenciar.

Num mundo onde a IA cria texto, imagem e código sob demanda, o profissional mais caro não será o que faz, mas o que escolhe. O que lê com atenção. O que compara. O que percebe incoerências. O que sabe dizer “isso parece bom, mas não é”.

A excelência virou um problema de curadoria.

Demorei um pouco para perceber isso.

E curadoria não é um trabalho confortável. Ela exige repertório, tempo e, principalmente, disposição para ir contra o fluxo.

Exige questionar respostas prontas, mesmo quando elas vêm bem escritas. Exige desconfiar da fluidez excessiva. Exige esforço cognitivo.

Aqui está o ponto de contato com algo que venho alertando: o risco da sedação intelectual.

Quando tudo chega pronto, rápido e bem formatado, pensar passa a parecer ineficiente. Questionar vira perda de tempo. E aceitar respostas medianas se transforma em hábito.

A IA não cria esse comportamento sozinha, mas ela o amplifica de forma brutal.

Reprogramar o pensamento, nesse contexto, não é aprender a usar mais ferramentas. É reaprender a filtrar. A verificar. A sustentar julgamento próprio num ambiente inundado de conteúdo plausível.

O profissional humano que continua relevante não é o criador romântico, nem o executor compulsivo. É o curador. Aquele que entende o domínio o suficiente para reconhecer qualidade, contexto e consequência. Aquele que sabe quando algo está correto e quando apenas soa correto.

Criar continua importante.

O problema é quando qualquer coisa bem escrita já parece suficiente.

O trabalho que sobra é o de separar o que vale do que apenas ocupa espaço. E esse trabalho, pelo menos por enquanto, ainda não foi terceirizado com sucesso.

Talvez porque ele exija algo que a IA ainda não tem: responsabilidade pelo juízo que faz.

Daniel Branco
Ser humano, Economista
Empreendedor e Mentor
Especialista em IA Aplicada

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