
Faz vários anos, Dubai começou a patrocinar um campeonato de futebol. Convidou times famosos da Europa e do Brasil, e numa final sobraram dois Internacionais, o Internacional de Porto Alegre e a Internazionale de Milão. Fui à decisão com meu filho e vários outros brasileiros expatriados nos Emirados Árabes. Dispostos a torcer pelos gaúchos, mineiros, paulistas e cariocas ensaiamos gritos de guerra nas arquibancadas. Apareceu no grupo até um gremista, usando a camisa do time, que jurou se unir aos colorados em nome da brasilidade. Houve quem achasse uma afronta, pois a rivalidade Grenal não acaba nem no exterior. A briga que aconteceu mais tarde entre ele e os adversários no bar de um condomínio fechado, por conta do jogo, foi de pequena monta diante do enorme desprendimento de, em princípio, um gremista torcer pelo time inimigo. O problema foi descobrir que, por dentro, ele era Internazionale desde menino.
O estádio dubaiano parecia saído de uma cidade do nosso interior, desses em que a galera fica ao lado dos jogadores, separados apenas por uma cerca da altura da barriga de um adulto. O bandeirinha corria na estreita faixa entre a cerca e o gramado, um gramado digno do deserto: era um pálido verde que sonha com uma chuva para dar o ar da graça. O céu sem nuvens não tinha estrelas, apagadas pelo brilho dos holofotes. A temperatura havia caído um pouco com a chegada da noite, não passava dos trinta e cinco graus.
A bola começou a rolar, fui para junto da tal cerca que nada cercava. Jamais voltaria a ver um jogo importante tão de perto. A gritaria me ensurdeceu. Os brasileiros, em menor número, berraram mais que o resto das arquibancadas. Abafaram até a reza do muezim que saía dos alto-falantes da mesquita dentro do estádio. Sim, ali havia uma mesquita que, de tempos em tempos, lembrava aos fiéis os ensinamentos do Corão que se misturavam aos palavrões dos torcedores numa salada de línguas. Coitadas das mães dos italianos. O tsunami escatológico atravessou milhares de quilômetros e com certeza inundou Milão. No revide, os italianos ofenderam todas as genitoras brasileiras. Entre uma e outra escaramuça, ressurgia a voz de apascentar ovelhas do muçulmano no alto da torre da mesquita. Admirei o belo contraste entre culturas, o choque entre a oração e o palavrão. Sem falar que aprendi novos louvores para as mães alheias.
No time da Internazionale de Milão jogava um brasileiro que, zagueiro, ficava quase sempre ao meu lado na cerca, a um metro de distância, pronto para barrar os atacantes gaúchos. Em nome da pátria, pedi-lhe que facilitasse o jogo para os porto-alegrenses. Ele fez que não ouviu. Insisti. Os mais assanhados da torcida lhe imploraram para cair de quatro. De novo, se passou por surdo. Na terceira vez, mandou minha mãe não sei pra onde e tentou me dar um murro. Levou uma vaia consagradora dos compatriotas. Reagiu com sonoras imprecações contra nossas genitoras, do Oiapoque ao Chuí. Durante o resto da partida, virou o alvo de todo tipo de chacota.
No fim, o Internacional de Porto Alegre acabou levando a melhor – e a taça. Após o apito final, os brasileiros invadiram o campo e houve uma reconciliação geral. Paz dubaiana. O zagueiro brigão e eu nos cumprimentamos. Reconheci a dificuldade de suportar a torcida adversária ali tão perto do gramado, mas torcidas buscam justamente desestabilizar o outro time. Faz parte do jogo. A galera colorada também o perdoou e aplaudiu. Alguns o tietaram, pediram autógrafo. Ele cedeu ao samba que rolava e ensaiou uns passinhos.
Nisso começou o foguetório. Quinze minutos de fogos de artifício. Mais longo que no réveillon do Rio. Nunca tinha visto um espetáculo semelhante, tão luminoso e tão barulhento. Abafou toda a comemoração. A cor predominante era o vermelho, e os vencedores concluíram que era homenagem à sua camisa. Só o gremista, como depois ficamos sabendo, detestou o resultado. E também o muezim, com a reza engolida pelos estrondos.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
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