A carreira científica de Katalin Karikó se desenvolveu à margem das linhas de pesquisa consideradas prioritárias por grande parte da comunidade acadêmica. Nascida na Hungria sob regime comunista, filha de um açougueiro, ela construiu sua trajetória insistindo em uma hipótese que, por décadas, foi tratada com ceticismo: o uso do RNA mensageiro como ferramenta terapêutica e preventiva. Em um período em que a biologia molecular priorizava abordagens mais estáveis e previsíveis, Karikó seguiu dedicada a um material conhecido justamente por sua instabilidade e por provocar respostas inflamatórias intensa, fatores que levaram muitos pesquisadores a considerá-lo inviável para uso em humanos.
Nos anos 2000, já na Universidade da Pensilvânia, Karikó passou a colaborar com o imunologista Drew Weissman. Juntos, identificaram um dos principais entraves ao uso do mRNA: a ativação excessiva do sistema imunológico. A solução veio com a modificação química de nucleosídeos do RNA, capaz de reduzir significativamente a resposta inflamatória sem comprometer a produção de proteínas. O trabalho foi publicado em 2005 e deu origem a patentes que se tornariam centrais para o desenvolvimento de vacinas e terapias baseadas em mRNA. Ainda assim, o estudo teve repercussão limitada à época. O financiamento era escasso, o interesse institucional reduzido e, longe de reconhecimento, Karikó chegou a perder status dentro da própria universidade.
Esse cenário só começou a mudar em 2020, com a pandemia de COVID-19, quando a necessidade de plataformas vacinais rápidas e escaláveis se tornou urgente. A tecnologia de mRNA, até então periférica, passou a sustentar as primeiras vacinas aprovadas para uso emergencial em larga escala, com impacto direto na redução de casos graves e mortalidade em diversos países. Em 2023, quase vinte anos após a publicação de seu trabalho mais decisivo, Katalin Karikó e Drew Weissman receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. O reconhecimento marcou não apenas uma conquista individual, mas a validação tardia de uma linha de pesquisa que permaneceu por décadas fora do centro das prioridades científicas até se tornar indispensável.



