
A humanidade poderá estar caminhando para o seu fim. Qual será o cenário em futuro breve, ou daqui a 100 anos? Veremos nestes próximos 100 anos o final das democracias, o aumento das guerras, e o extinguir de nosso meio ambiente.
Noah Harari, em “Sapiens: a brief history of humankind” (2011), diz que o homem é um “acidente biológico“, que deve desaparecer “em um século ou mais“. Os argumentos Noah são os de que o homem é violento em sua natureza, a busca da riqueza impera sobre o destino do homem, e a ignorância prima sobre a nossa falta de visão. Sua belicosidade, contra si próprio e contra as outras espécies, é ímpar, sempre com desolamento e destruição.
O “Doomsday Clock”, ou o “Relógio do Apocalipse”, relógio simbólico, mantido desde 1947 pelo “Comitê da Organização do Boletim dos Cientistas Atômicos” da Universidade de Chicago, que considera como escala do tempo do homem na Terra o equivalente a 1 dia, indica que em 2025 chegamos a 90 segundos para a meia noite da possibilidade de nossa extinção, a menor marca já atingida na história, devido às possibilidades de guerra nuclear a curto prazo, e mudança climática, a médio prazo.
Chris Hedges, em “What every person should know about war” (2003), indica que nos últimos 3.400 anos de nossa história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do total de nossos tempos. Hoje, temos 11 guerras em curso no mundo, com cerca de 60 conflitos armados.
O mundo é hoje ecologicamente limitado. A temperatura média do planeta deverá subir 2oC até o final do século, e o nível do mar deverá subir em até 2m, gerando o que António Guterres, Secretário Geral da ONU, chamou de “êxodo de proporções bíblicas”, deslocando cerca de 1 bilhão de pessoas das áreas costeiras para o interior dos continentes. Além disso, temos somente 40km de atmosfera no planeta, 75% nos primeiros 10km, os primeiros 5km respiráveis. É muito pouco ar para tanta agressão ao planeta
Porque os homens não conseguem conter as mudanças ecológicas? Porque mesmo que todos os homens e países estivessem de acordo, empresas e países sempre se encontram em diferentes situações de disponibilidade financeira, na luta da competição. Na economia, não existe base para a formação de uma ação racional coletiva em prol do meio ambiente, na utilização da terminologia de Max Weber. O homem move-se em conflito. Estamos na situação do “Dilema do Prisioneiro” da Teoria dos Jogos, onde entre o risco total e o risco zero, homem sempre opta por aguardar soluções medianas, incompatíveis hoje com o desenvolvimento do planeta. Como se diz no dito popular, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. O capitalismo, em sua competição, traz a gênese de sua própria destruição.
O término das democracias é inevitável. Segundo o “World Inequality Report”, as classes alta, média e baixa cresceram em seus rendimentos até 1980. A partir de 1980, cai a participação relativa das classes médias no PIB mundial, gerando instabilidade política. Relatório do Banco UBS (2024) mostra que, hoje, cerca de 2.500 famílias detêm o patrimônio equivalente a 12% do PIB do mundo.
As classes médias almejam estabilidade econômica para a sua sobrevivência. Aversas às diversas formas de socialização, e não vendo o sistema eleitoral democrático atender às suas demandas, as classes médias comprimidas abrem a sua base de apoio a líderes fascistas, conforme definido nos trabalhos de Hannah Arendt, De Felice e George Mosse. Foi assim na Alemanha, na pós 1ª Guerra Mundial com a hiperinflação e ascensão de Hitler, e é assim no atual Estados Unidos, com a sua diminuição de importância econômica e política no mundo, com Trump no poder. Assim como em outros países.
O futuro próximo dependerá do controle do petróleo, dos recursos minerais, e dos recursos hídricos.
Hoje, somos reféns das três grandes potências: os Estados Unidos, a China e a Rússia, devido ao poderio econômico, tecnológico e militar desses países. E devido às limitações ecológicas, não há mais tempo para este quadro se alterar, que será mantido a ferro e fogo, através da violência e guerras, A Índia corre por fora nessa competição, a ver como irá desempenhar.
O arsenal atômico mundial, baseado em dados de 2021, está hoje distribuído pelos seguintes sete países: Rússia com 5.889 ogivas nucleares, Estados Unidos 5.233, China 410, França 290, Inglaterra 225, Paquistão 170, Índia 164, Israel 90, Coreia do Norte 30, o seleto grupo de países com quem “ninguém mexe”. O Brasil, signatário do “Tratado de Não Proliferação Nuclear”, está fora deste grupo.
Com relação ao petróleo, Rússia detém 4,8% das reservas mundiais, Estados Unidos 2,1%, China 1,5%, Europa Ocidental 0,6%. Os Estados Unidos, que consomem 20% do total do petróleo processado no mundo, anexaram a Venezuela, detentora de 18,2% das reservas mundiais. O MENA – Middle East e North Africa, detém 50,8% das reservas do planeta, Canadá 10,4%, áreas de influência e de disputa mundial. Estima-se que a Groenlândia possa ter cerca de até 2,8% do total de nossas reservas (estimativa ainda não confirmada). No total do refinamento do petróleo, as empresas americanas refinam hoje 18% do total no mundo, contando suas refinarias nos Estados Unidos e no exterior.
Com relação às terras raras, China 48%, Brasil 23%, Índia 7,5%, Austrália 6,2%, Ucrânia 5% (estimativa ainda não confirmada), Rússia 4,1%, Estados Unidos 1,9%, Groenlândia 1,5%. Os Estados Unidos irão anexar a Groenlândia, sem se importar com a OTAN, que pode ser repactuada formal ou informalmente, devido à dependência da Europa do poderio econômico e militar dos Estados Unidos, no desmanche das leis internacionais.
Com relação aos recursos hídricos, Brasil 15,3%, Rússia 8,0%, Estados Unidos 5,5%, Canadá 5,2%, China 5,0%.
Hoje, são três as áreas de interesse e conflito que podem gerar uma guerra mundial: o Oriente Médio, com 50,8% das reservas mundiais de petróleo; a Ucrânia, central na Europa e com 5% do total das terras raras; e Taiwan, que processa cerca de 90% dos supercondutores do mundo, indispensáveis para a moderna indústria eletroeletrônica empresarial e militar.
O Brasil, sem representatividade política no mundo, com PIB de somente 1,97% do PIB mundial, e sem armamentos atômicos, corre sérios perigos em futuro próximo. O Brasil tem pouco a negociar, a não ser os seus próprios mitos.
O futuro, poderá privilegiar a Rússia em relação às outras superpotências. No impedimento do mercado diante a crise ecológica, os Estados Unidos por demais sofrerão, por ser a sua economia descentralizada e dependente de atores econômicos individuais, e com padrões de infraestrutura e de consumo incompatíveis com soluções mais coletivas. A China vai muito bem, por enquanto, mas a sua boa sequência dependerá da qualidade de suas elites, que se sucederão, mais do que em outros países, devido ao mando na política interna. A Rússia, por seu lado, é caracterizada pelo que Weber chama de Estado Patrimonial, onde as elites políticas e econômicas se apoderam do Estado, para benefício próprio, em uma estrutura burocrática, em proporção mais adequada para o futuro entre o Estado e os Agentes Econômicos, na ponderação e otimização das decisões. Pode ser que o século XXII seja da Rússia.
Caminhamos firmes para o abismo.
Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”



