A vida como ela é (por Lindolfo Paoliello)

Esse o milagre da transposição do texto do jornal para o livro..[...]

Nelson Rodrigues deu certa vez uma entrevista a Paulo Francis e lhe disse: “Quero ser esquecido para sempre”. Não conseguiu. Bem que contribuíram, nesse sentido, militares e editores – e acho que também os próprios tempos e os costumes. Os militares, censurando suas peças teatrais; os editores, deixando de reeditar suas obras – e o tempo… Eu diria que o tempo e os costumes contribuíram para o esquecimento de Nelson Rodrigues, pelo culto às atitudes de superfície e dissimulação que, sob o manto do moderno e do soft, imperaram nas décadas de 70 e 80. A realidade tornou-se coisa de mau gosto, era perigoso ser autêntico, o drama era cafona e foi isto: Nelson Rodrigues ficou fora de moda.

Mas, fazendo frente ao modismo, alguém teve a ideia de reeditar a obra do teatrólogo/cronista e ela saiu da transitoriedade para se mostrar eterna. Esse o milagre da transposição do texto do jornal para o livro. O texto é o mesmo, a história é a mesma, mas a forma de o leitor encara-la é outra. Muda inteiramente. E então as pessoas descobrem verdadeiramente o autor.

Em 1967, aos 54 anos, Nelson Rodrigues foi convidado pelo Correio da Manhã a escrever suas memórias. Vejam bem: aos 54 anos, idade em que hoje o sujeito está cheio de planos, quando não está iniciando seu segundo ou terceiro casamento. Mas a vida era encarada assim pelos velhos (de 50 anos) daquele tempo, e Nelson Rodrigues escreveu suas memórias no surpreendente tempo de três meses e de forma magistral. Sob a forma de crônica, o mais despretensioso dos gêneros literários que, segundo Antônio Cândido, “por não temer perder-se acaba por se salvar”.

A crônica salvou Nelson Rodrigues. A idéia meritória foi da Companhia das Letras, que reeditou as suas memórias sob o título de A Menina sem Estrela.

É pura emoção, não sei se deveria dizer pura paixão. Desde a narrativa da infância, sensorial, à flor da pele: “O mar antes de ser paisagem e som, antes de ser concha, antes de ser espuma – o mar foi cheiro.” A primeira visão da nudez feminina, na figura de uma vizinha louca. A dramaticidade da morte do suicida em uma farmácia. A beleza das constatações filosóficas: – “A morte é anterior a si mesma. Ela começa muito antes, é toda uma penosa e paciente elaboração”. As trágicas mortes dos irmãos Roberto e Paulo, com marcante repercussão da primeira, sobre a sua formação e sua vida. O quadro político dos anos 50: Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, o jornalismo de Samuel Wainer. A impressionante narrativa da pobreza e da fome, após a morte de seu pai e a perda da influência da família. E, por fim, a história da “menina sem estrela”, Daniela, sua filha cega.

É imediata a constatação dos laços entre Nelson Rodrigues e Zola. Interessante que ele achava seu pai parecido com Zola. Mas é nos seus textos que se sente essa presença, na obsessão pela verdade, no ritmo irregular da narrativa (o ritmo da vida é regular), no retrato fiel dos personagens. No movimento lento, nos meandros e vaivém das histórias. Na precisão das cenas. Em Nelson Rodrigues, atos, caráter e destino são resultantes da hereditariedade e do ambiente e os fatos são narrados sem retoque. Minto: com um toque de paixão e dor. Com honestidade e decência ele escreveu, a seu modo, a vida como ela é.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.   

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