
Muitas considerações podem ser feitas sobre o romance Linha de neve, de Luís Giffoni (São Paulo: Editora Sinete, 2025): a exuberância andina, a pobreza do povo boliviano, em denso trecho da p.57; a abordagem da alta burguesia carioca, alienada e voltada ao tráfico de armas; ou especular sobre machismo, erotismo, ou ainda simplesmente observar uma obra literária contemporânea que não se rende a um discurso politicamente correto. Porém, quero atentar para sua dimensão lúdica, gratificado pelo prazer que essa leitura me proporcionou. Embora o livro tenha como uma das epígrafes um trecho da canção Garota de Ipanema que fala de tristeza, prefiro destacar o bom humor que pontua a cordilheira de ludismo.
Só para começo de conversa, ao colocarmos as palavras Huayna, Soraya e Yoga, aí já teremos saraivada de sílabas derretendo os termos, justapondo geografia, mulher e prática espiritual, conjunção mente corpo espírito, que compõem elementos semânticos da obra, de muito erotismo, filosofia e aventura pelos cumes dos Andes e ciúmes de quem por lá anda. E tome aquele trecho hilariante da p. 105: “A peça de resistência de Michel para interagir com os aimarás era a sonora chupito de chupillo de cholita, gíria local para chupadinha na xota cholita, que ele mentia ter apreciado nas mulheres de Sorata.”
Quanto ao aspecto semântico, o jogo já se inicia na p. 23, no embate entre som e silêncio, neste trecho: “Da linha de neve para cima, a manhã de poucas nuvens se trombeteava com o silêncio da beleza.” Já a ludismo verbal pode ser percebido frequentemente, como se lê na p.41, nas aliterações dos fonemas /p/ e /b/ incluindo rimas e paronomásias: “Como apagar o mau agouro, impor a lógica e o bom senso, recuperar a alegria? perguntou-se Michel, mirando os pés, que sempre lhe pareciam ter carne de menos diante de tanto dedo e tanto osso. Como? Apelar, de novo, para games no celular?”
O protagonista Michel, que muito se apega à Montaigne e montanha, tem em seu sobrenome o francês Morlet e o português Pereira. Não é impossível que o autor não tenha ironicamente optado por um termo francês, cuja origem remonta à palavra “mouro”, para designar um branco, louro, de olhos azuis – mas que é visto como um “orangotango albino” pelo seu amigo Fábio. Ironia é o que não falta nas obras giffônicas. E Michel quer desconstruir a base da filosofia ocidental ao ver Aristóteles e Platão como a Dupla Dinâmica Batman e Robin. E tome filósofos para entrar na rinha com vilões de quadrinhos e filmes: ““A briga contra os gregos, antes de virar presente de grego, na certa teria o mesmo destino de Cambridge. O Coringa por acaso conseguiria vencer o Batman e Robin?” (p..48)
Os aspectos lúdicos, ligados à intertextualidade, produzem no leitor viagens vertiginosas. Como não lembrar de Stephen King e Stanley Kubrick de O iluminado, na antológica cena em que o personagem de Jack Nicholson datilografa centenas de páginas com uma mesma frase? E Giffoni evoca isso na p.44: “Filósofo sem pretensão, trabalha sem diversão, tomba diante de tesinhas. É isso que você quer, Michel Morlet Pereira? Reage, porra. Reage, antes que morra nesta terra de tristeza contagiante.” Saint-Exupéry também entra na roda: “– Quando vou transar com você às oito, desde o meio-dia me sinto feliz.” (p.86) E a coisa sobra até para Rômulo Paes, compositor mineiro que subia Bahia e descia Floresta, que de repente é evocado na frase de Pepe, um guia boliviano, na p. 264: “Minha vida é esta, subir montanhas, descer à terra.” Num livro em que não faltam montanhas, Thomas Mann tem seu lugar: “Sua majestade, a jovem montanha mágica. Sem a decadência, sem a guerra a rondá-la. Ele tampouco estava doente.” (p.289) Figuras mitológicas são evocadas nas inesperadas construções metafóricas do livro, associadas a elementos mais recentes, não obstante antigos, num jogo de anacronismos: “A geleira era um quilométrico merengue, arranhado por ciclopes com unhas imundas. Uma trilha de transformers dos desenhos animados antigos.” (p.46) E lúdicas metáforas envolvendo as llamas: “Uma lhama distraída cruzou o asfalto, o pescoço bem empinado, andar de manequim camelídeo. Parecia mascar chiclete.” (p.65) Na p.49, metáforas e alusões shakespearenas não faltam: “As décadas formariam uma confortável almofada para a queda de seu próprio interesse – ou acolheriam o esquecimento num sono profundo? Morrer, esquecer, dormir, nada mais. […] Como neste ônibus, há algo de podre no reino da tua mais vã filosofia, dear Michel.”
Hilárias são as ereções de Michel, assemelhadas ás montanhas, e que me leva a uma cena de Sean Penn no filme Uma batalha após a outra. Numa obra em que quase tudo é jogo, Lego e Logus se encaixam, como vemos na p. 91: “Formavam um monólito, unido pelos feromônios e pela cola natural do gozo. Lególitos, Ególitos.”
Trocadilhos comparecem, como “sofista” e “surfista”, na p.53, ou este, mais previsível, na p. 59: “Apenas o prazer de voar em torno da imaginação. Condor da arte. Com dor?” Não é gratuito que a irmã de Michel tenha o nome de Sophie. Ele se vê às vezes como escritor, na p. 61: “Escritor divaga mais que filósofo. Filósofo se contenta com uma ideia, que explora à exaustão; escritor manipula muitas, ao mesmo tempo, às vezes sem conexão.” Nas p.81 e p.96, uma overdose trocadilhesca: “A busca da simplicidade e da simplificação levou-o a concluir que o ser humano se reduzia a reflexão e sexo: reflessexão. […]“Em algum lugar, havia lido que a transpiração libera um afrodisíaco, poderoso atrator sexual. Viagra in natura.
Autoinoculação sexossovacal ou sovacossexual?” Em meio a muitas metáforas, a metonímia aparece com humor numa passagem em que aparecem uns alemães:” – Vamos, Salsichas, não temos tempo a perder.” (p.158). E não deixo de apontar a sátira que se faz ao pai do protagonista, metonímia de uma certa Direita carioca, milionário corrupto que encaixa um “tá Ok” em suas falas, e xinga a “esquerdalha nacional”, além de falar errado o nome do filósofo austríaco-britânico Wittgenstein, designando-o como “Weltgenstein”. Michel, metido à poeta, pensa rimando, ao ver Soraya com Mark: “Não iria se matar de ciúme. Nunca. Ciúme dói. Ciúme mói. Ciúme corrói. Ciúme destrói.” (p.152) Ademais, há marcas poéticas no texto, como na p. 239: “Os passos no assoalho soavam como batidas de atabaque. […] Observou o Huayna. A brancura de farinha de trigo terminava em redemoinho de açúcar de confeiteiro. […] Mais de dois Pães de Açúcar empilhados sem direito a bondinho.”
E, por falar em pão, na p.284 encontramos esta reflexão de um garanhão que se vê corneado: “Ódio é frustração de perdedores. […] Torres del Paine. Torres del Pain. Pain. Pão e dor. Merda. Soraya era pão e dor. Cárcere do prazer. Ainda a comeria uma vez. Depois, a dor.” Nem só de pão identitário vive nossa literatura…
Caio Junqueira Maciel é Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Foi Professor de Literatura da UFMG e Editor dos “Cadernos de Literatura Comentada”. Escritor, Poeta, Cronista e Letrista



