
O movimento nas livrarias e papelarias está provocando filas. Não são pessoas à procura de um bom romance para curtir neste resto de férias. Trata-se da rotina que se repete ano após ano: pais e mães aflitos em busca do material escolar. Deixaram as compras para a última hora. De repente se deram conta da enormidade das exigências para o ano letivo e entraram em pânico. Mesmo com a aquisição pela internet, diversos itens dependem de pesquisa nas ruas. Por exemplo, onde encontrar penas de pavão nas cores verde e rosa que o aluno do maternal deverá levar na mochila no primeiro dia de aula?
Uma das grandes vantagens de ter os filhos crescidos é a desobrigação de enfrentar a tal relação de material. Não se trata de relação, mas de verdadeira ralação. Sempre foi um tormento para mim completar as listas que os colégios exigiam durante o maternal e as primeiras séries. Às vezes, continham mais de trinta itens, sem informar onde encontrá-los. Enfrentei batalhas campais para adquirir materiais e livros esgotados. Quando avisei a escola sobre a inexistência deles no mercado, ouvi a resposta padrão da secretária: “Teve a mãe de um aluno que conseguiu tudo… Então o senhor deve procurar mais, que também consegue”.
Uma vez requisitaram bolinhas de isopor com dois centímetros de diâmetro, uma dor de cabeça para achar, piorada com minha irritação para desvendar como seriam utilizadas: pipoca de mentira? Pintadas de marrom, virariam brigadeiro de fantasia? Seriam usadas junto com o pacote de lantejoulas ou polidas com a lixa preta, também constantes do rol? E o pedido de 8,2 metros lineares de filó azul? Por que essa precisão decimal? Quando vi a solicitação de 3.000 folhas de papel branco tamanho ofício, não resisti a uma continha: meu filho deveria usar pelo menos 15 delas a cada dia, mais de três por hora. Ficaria ele por conta de riscar e desenhar durante toda a tarde? O que dizer de itens como blocos A3 “em cores vibrantes, sem encadernar”? Ou do kit maleta de médico completo, acompanhado de outro com frutas e legumes de plástico? Ou da mochila na exata dimensão de 45×32 centímetros?
Não consigo me esquecer dos preços nas lojas. Variam até 450% de um lugar para o outro. Isso mesmo, 450%, segundo levantamento recente. Quem não pesquisa, acaba pagando muito mais. O pior é que, de vez em quando, a gente se rende ao cansaço e compra o item no primeiro local em que o encontra.
Há, ainda, no caso da rede particular, um peso adicional: o custo do livro didático. Pequenas fortunas são investidas nas coleções adotadas. Com um agravante: muitas obras são descartáveis, portanto, inservíveis para, por exemplo, o irmão mais novo, no ano seguinte. A ironia é que vários desses manuais falam de sustentabilidade e defesa das florestas, quando, na verdade, defendem a insustentabilidade, pois incentivam o corte de árvores para produzir tanto papel.
Quando alguém me confessa que está ficando louco ou louca com a lista de material, eu compreendo a ameaça de surto, bem justificada, ofereço minha solidariedade e sinto alívio agora que meus filhos são adultos. Filhos nos dão muita alegria, mas também muito trabalho. Na somatória geral, valem a pena. E muito. Significam nossa permanência no mundo. O que não fazemos para viver esse gostinho de eternidade?
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve



