Sonho (fantástico) de Dora (por Lindolfo Paoliello)

Dormir é um modo interino de morrer? Sonhar acordado evita esse, entre outros riscos..[...]

Dora! Quanta loucura já vivemos juntos! Pintamos e bordamos com a sensualidade de amantes, a espontaneidade de crianças, a dissimulação de primos, a ternura de recém casados.

Trocamos telefonemas às quatro da manhã, escapamos do trabalho às três da tarde para ver o sol nascer em Salvador, saímos para em comprar cigarros e fomos parar em Roma.

Houve aquela vez, você se lembra? Em que fomos fazer pesca submarina em Itacuruçá e emergimos, clandestinos, na costa do Taiti.

Éramos crianças? Éramos jovens? Coisas da meia idade? Nunca! Espaço e tempo não existiam em nossa relação, convencionamos nova dimensão: a fantasia; citávamos Voltaire e dizíamos que, pela felicidade, sacrificaríamos a verdade.

O pastor que morava na esquina de sua casa disse que estávamos condenados à morte porque tínhamos pecado, porém cada um de nós viveu 930 anos.

Seus filhos, paridos sem dor, não tiveram sarampo, coqueluche ou catapora. Foram adolescentes sem sofrer e ficaram adultos sem deixar de ser crianças.

Não conhecemos o IPCA, a nossa felicidade nunca foi media em OTN; nosso apartamento não era da Caixa, nunca tivemos que recorrer ao SUS e desdenhamos do INSS.

Ganhamos na megasena e não casamos, nem mudamos; conseguimos que a dívida externa fosse administrada pela UNESCO, em lugar do FMI e, numa questão de meses, o Brasil estava salvo.

Podíamos passear pela Avenida Atlântica de mãos dadas, tarde da noite. De vez em quando ouvíamos dizer, horrorizados, que tinham batido a carteira de alguém ou aplicado o conto do vigário, mas isso se dava muito raramente.

Se nos encontrávamos uma vez em um ano, dizíamos ôi! E saíamos abraçados: tudo corria fluido e sem regras.

Dormir é um modo interino de morrer? Sonhar acordado evita esse, entre outros riscos. Sonhar é melhor do que viver: não faz mal, não leva a nada, nada custa e não ofende; viver é, às vezes, muito ofensivo.

Síntese das venturas e aventuras que cada um sonha viver, ah, Dora! Quantas loucuras já vivemos juntos.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de A Rebelião das Mal Amadas, Nosso Alegre Gurufim e O País das Gambiarras.

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