Disruptura institucional em curso nos Estados Unidos (por Ricardo Guedes)

Assim como Trump tentou em 6 de janeiro de 2021 com a invasão do Capitólio, e Bolsonaro tentou nos últimos 2 anos de seu governo e no ato de 8 de janeiro de 2022, o processo de [...]

Assim como Trump tentou em 6 de janeiro de 2021 com a invasão do Capitólio, e Bolsonaro tentou nos últimos 2 anos de seu governo e no ato de 8 de janeiro de 2022, o processo de disruptura institucional nos Estados Unidos já está em curso. Não que necessariamente vá funcionar, mas está em curso.

Trump, no início de sua vida empresarial, aprendeu com o advogado Roy Cohen os princípios que até hoje utiliza em suas ações. Diante de processo de dívida trabalhista milionária em Nova Iorque, foi então aconselhado não só a não pagar, mas revertê-la com indenização por danos à sua reputação, nas fragilidades da Lei. A Lei nos Estados Unidos é em parte escrita e em parte consuetudinária, mais consuetudinária do que escrita, baseada em acordos por tradição, com suas brechas. Os conselhos e as atitudes adotadas são a de “sempre atacar”, “sempre negar as acusações”, e “comemorar as derrotas como vitórias”.

Trump quebra as ordens interna e internacional.

Trump tem tres objetivos: a manutenção do poder; petróleo e recursos minerais; e posições geopolíticas no mundo.

Internamente, Trump quebra os princípios da liberdade e do mercado, que fizeram a grande nação Unidos. Trump aparelha o Estado a la Gramsci, intelectual e ativista da esquerda italiana na primeira metade do século XX, que em um de seus trabalhos dizia que a melhor forma de se tomar um Estado é aparelhando a máquina governamental. Trump aparelha as estruturas de Governo dos Estados Unidos, intervém com a Guarda Nacional em cidades democratas, politiza as Polícias e as Forças Armadas, quebra a Lei com a prisão e deportação de estrangeiros sem base jurídica. A burocracia americana, que sempre foi um instrumento de Estado, passa a ser um instrumento de Governo.

Externamente, Trump quebra os acordos internacionais, invade a Venezuela e leva para os Estados Unidos o ditador Nicolás Maduro por causa do petróleo, sem a autorização do Congresso; e intenciona a invasão da Groenlândia, pertencente à Dinamarca, que integra a OTAN, devido a seus recursos minerais e posição geopolítica de importância para nova rota de navegação marítima com o degelo da capota polar. Romper com a OTAN? Não é problema. Fora o vexame para a Dinamarca, a Europa hoje precisa do dinheiro e dos equipamentos militares americanos, para a Guerra da Ucrânia e contenção da Rússia. Reestruturação dos princípios da OTAN, nova organização, ou novo acordo informal em curso? O que vale é o poder e os seus resultados.

Trump terá significativas dificuldades a frente. A nível internacional, os Estados se esquecem da significativa diminuição de sua importância, com o PIB dos Estados Unidos indo de 40% do PIB mundial em 1960 para 26% em 2025. Os Estados Unidos não mandam mais no mundo como Trump quer. E o mundo vai muito além de negociações de dívidas trabalhistas no setor imobiliário de Nova Iorque. Internamente, os Estados Unidos hoje apresentam inflação dos bem básicos acima dos rendimentos da população; a avaliação de Trump está em somente 33% neste momento, muita baixa para um Presidente Americano; e Trump deverá perder as eleições nos Midterms do segundo semestre deste ano, na diminuição de suas bases eleitorais. 

É muito difícil que Trump consiga alterar as regras eleitorais da Constituição para poder se recandidatar, e muito pouco provável que consiga fazer o seu sucessor com somente 1/3 do eleitorado.

Possível tentativa de quebra institucional em curso.

A ver.

Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança” 

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