2026: O que esperar? (por Carlos Primo Braga)

O final do ano inevitavelmente gera questões sobre o que esperar nos próximos meses. O ano de 2025 foi marcado por eventos significativos incluindo: o início da [...]

O final do ano inevitavelmente gera questões sobre o que esperar nos próximos meses. O ano de 2025 foi marcado por eventos significativos incluindo: o início da segunda administração Trump e decisões geopolíticas e de política comercial, que confirmaram o fim da Pax Americana; a continuidade da guerra no Leste Europeu; eventos dramáticos no Oriente Médio (ataques de Israel e dos EUA ao Irã e os conflitos em Gaza, no Líbano e no Iêmen) e na África (e.g., a guerra civil no Sudão); tensões geopolíticas influenciando decisões da União Europeia (EU) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); e ecos de um retorno da Doutrina Monroe nas relações entre os EUA e a América Latina e o Caribe (LAC).

Com o risco de me candidatar a um lugar no oitavo círculo do inferno de Dante (no fosso dedicado àqueles que tentam prever o futuro…), seguem algumas previsões sobre o que esperar em 2026. Os temas abordados estão organizados em três categorias abrangentes: geopolítica, economia e tecnologia.

Geopolítica

Infelizmente os conflitos atuais devem continuar em 2026. No caso da guerra na Ucrânia, a despeito das múltiplas propostas para uma paralisação das hostilidades, diferenças importantes permanecem entre o que é aceitável para Moscou e para Kiev. O Presidente Trump apresentou um plano de paz em novembro, que após uma série de interações com o governo ucraniano, tem sido caracterizado como uma plataforma viável para uma trégua nas hostilidades. A realidade, porém, é que muito embora 90% dos termos do acordo sejam considerados aceitáveis para a Ucrânia, como observado pelo Presidente Zelensky em seu discurso em 31/12/2025, ainda não há acordo com respeito a algumas questões críticas: a exigência russa de anexar formalmente toda a região do Donbas, ainda que tropas ucranianas controlem cerca de 11 a 15% do território em questão; o controle de infraestrutura crítica para a economia ucraniana, em particular, a usina nuclear de Zaporizhzhia; e garantias de segurança (e.g., o eventual acesso da Ucrânia à OTAN ou uma garantia de proteção equivalente ao Artigo 5 da OTAN; e o tamanho das forças militares do país no pós-guerra). Além disso, Moscou não tem demonstrado um grande entusiasmo para a finalização do acordo, refletindo a percepção de que no momento o cenário militar lhe é favorável. Não surpreende, portanto, que 74% das avaliações de “superforecasters” da plataforma Good Judgement apostem que o final do conflito só virá a ocorrer em 2027.

A administração Trump publicou a sua versão da estratégia de segurança nacional (National Security Strategy, NSS) em 4 de dezembro de 2025. A NSS é um documento político, preparado pela Casa Branca, que descreve as principais áreas de preocupação no que tange à segurança do país. Tais documentos são frequentemente associados com as doutrinas que guiarão a política externa do país. Essas doutrinas tiveram focos distintos nas últimas décadas. A Doutrina Carter, por exemplo, deixava claro que os EUA não permitiriam que o Golfo Pérsico e os seus recursos de energia fossem controlados por uma potência estrangeira. A Doutrina Reagan estabelecia que os EUA estariam prontos a apoiar movimentos anticomunistas e confrontar a União Soviética e seus aliados. Já a Doutrina George W. Bush deixava claro que nações que “hospedavam” ou apoiavam movimentos terroristas seriam alvos legítimos para os EUA.

A Doutrina Trump, por sua vez, sinaliza que os EUA não mais teriam interesse na preservação de direitos humanos ou de princípios democráticos como condições necessárias para engajamento econômico. Uma das mensagens do documento é a de que os EUA não pretendem mais fazer uma distinção moral entre autocracias e democracias, adotando uma política de “realismo flexível” que pode ser interpretada como uma licença para fazer o que for necessário para favorecer a economia dos EUA, promover reindustrialização e limitar fluxos migratórios.

Referências explícitas à Doutrina Monroe, articulada em 1823 pelo Presidente James Monroe e o seu Secretário de Estado (John Quincy Adams), são feitas nesta NSS. O Presidente Monroe deixou claro que qualquer intervenção estrangeira nas Américas seria considerada pelos EUA como um ato hostil. O objetivo era desestimular eventuais intervenções de potências europeias para recolonizar a região. Em 1904, o Presidente Theodore Roosevelt enunciou o que se tornou o corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, argumentando que os EUA tinham o direito de intervir militarmente no Hemisfério Ocidental para preservar ordem e proteger vidas e propriedades na região. Cabe assinalar que esse anúncio foi estimulado pela crise da dívida externa da Venezuela (1902-03), que provocou um bloqueio naval do país pela Alemanha, Itália e Reino Unido.

A NSS de 2025 merece atenção especial na medida em que o documento coloca as relações com a América Latina e Caribe (ALC) como uma prioridade para os EUA. Essa prioridade reflete preocupações com “narcoterrorismo” e imigração ilegal. O documento indica um interesse em fortalecer a presença militar dos EUA na região. A mobilização naval no Caribe nas últimas semanas de 2025, por exemplo, foi inicialmente racionalizada como uma forma de combater o tráfico internacional de drogas. Mas declarações (e ações) recentes da administração Trump sugerem que a pressão sobre a Venezuela tenha como objetivo promover uma mudança de regime no país (ou pelo menos, mudança de liderança como ilustrado pelo sequestro do Presidente Nicolás Maduro e de sua esposa em 3/01/2026) e controle dos recursos energéticos do país.

No campo econômico, a Doutrina Trump menciona a necessidade de reestabelecer a predominância econômica dos EUA na ALC. O documento indica explicitamente que ao negociar acordos com países do hemisfério, os EUA devem obter condições preferenciais (e.g., sole-source) para empresas americanas, por exemplo, no contexto de contratos governamentais.  Ao mesmo tempo, a NSS sugere que o objetivo é não apenas aumentar a presença econômica dos EUA na ALC, mas também limitar a presença e influência de outras potências econômicas (em particular, a China) na região. As ações recentes da administração Trump com respeito à Venezuela e declarações belicosas com respeito à Colômbia, Cuba e Groelândia sugerem uma Doutrina “Donroe”, ancorada em um conceito de esferas de influência regional.

A NSS emite também opiniões sobre outras regiões. O perigo de um “apagamento civilizacional” na Europa em virtude de fluxos migratórios e o fato da União Europeia ser caracterizada como uma instituição que enfraquece a soberania e as liberdades no continente dificultarão as relações entre os EUA e a União Europeia. No caso da Rússia, o foco é o restabelecimento de estabilidade estratégica e o término das hostilidades na Ucrânia, gerando questões sobre o futuro da OTAN. No que diz respeito à China, a NSS se concentra nas relações econômicas bilaterais, mas referência é feita à importância de se evitar um conflito militar com Taiwan. Cabe assinalar que o Presidente Xi Jinping em sua declaração de Ano Novo (31/12/2025), reafirmou que a “reunificação” de Taiwan com a República Popular da China é um processo inevitável. Essa declaração ocorreu imediatamente após os “jogos de guerra” (Missão de Justiça 2025) que simularam um bloqueio à Taiwan, uma demonstração de força contra interferências externas na região.

Economia

A despeito desse cenário geopolítico complexo, as previsões de crescimento econômico global para 2026 sugerem resultados similares àqueles observados em 2025. Previsões tanto de organismos internacionais, quanto de instituições financeiras privadas, apostam em um crescimento global na faixa de 2,5% a 2,9% (um resultado similar ao crescimento de 2,8% estimado para 2025). A principal fonte de incerteza, além de eventuais novos choques geopolíticos, é o comportamento da economia dos EUA: a previsão consensual é de um crescimento de 2,0% (semelhante aos 2,1% estimados para 2025). Esse resultado, se confirmado, contrasta com a expectativa anterior de uma recessão em 2025-26 como reflexo das medidas protecionistas anunciadas pela administração Trump. É bem verdade que o valor efetivo das tarifas impostas pelos EUA ficou abaixo dos anúncios originais, refletindo as idas e vindas do governo. Mesmo assim, uma tarifa efetiva média de cerca de 16,8%, o valor mais elevado desde a década de 1930, encontra-se em vigor. E o nível de incerteza e a arbitrariedade da política comercial dos EUA continuarão a influenciar expectativas econômicas em 2026.

O desempenho da economia norte-americana irá depender dos humores dos 10% dos consumidores mais ricos, que hoje respondem por quase 50% dos gastos de consumo nos EUA e da evolução da taxa de juros do Fed (a expectativa é que ocorram cortes adicionais de 50 bps em 2026, trazendo a taxa de referência para cerca de 3 a 3,25%). Cabe assinalar que caso o dólar continue a desvalorizar isso afetará a trajetória das taxas de juros. E a perda de dinamismo do mercado de trabalho pode contribuir para uma “onda” favorável ao Partido Democrata nas eleições de meio-termo em novembro, impactando os graus-de-liberdade do executivo nos EUA.

De uma maneira geral, os países da UE, o Reino Unido, a Rússia e o Japão crescerão abaixo da média global, enquanto o desempenho da Índia (6,5%) e da China (4,5%) continuarão a contribuir de forma significativa para o crescimento global. No caso do Brasil, embora o governo venha trabalhando com uma expectativa de crescimento de 2,44% (PLOA 2026), o mercado (e mesmo o Banco Central) estimam um crescimento na faixa de 1,5 a 1,8% (versus os 2,2% estimados para 2025). Tentativas de estimular a economia em 2026, no contexto de um ano de eleições presidenciais, contribuirão para aumentar o perigo de um cenário de dominância fiscal, que pode se tornar um risco para a condução da economia em 2027 (exigindo um aperto fiscal significativo no próximo ano).

Tecnologia

Como discuti anteriormente (https://capabrasil.com.br/bolhas-especulativas-e-crises-por-carlos-primo-braga/), a “excepcionalidade” da economia dos EUA está correlacionada com o desempenho do setor de alta-tecnologia. As 7 Magníficas (Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, NVDIA e Tesla) hoje respondem por mais de 30% do valor das empresas do índice S&P 500 nos EUA. A euforia associada com a Inteligência Artificial (IA) é um fator importante nesse contexto. Cabe assinalar, que o número de usuários de sistemas de IA evoluiu a uma taxa bem superior às experiências anteriores de introdução de inovações como a Internet e os telefones celulares, atingindo cerca de 800 milhões de usuários ativos no final de 2025. Duas questões receberão uma atenção crescente em 2026 com relação a IA: (1) até que ponto a IA irá afetar positivamente a produtividade das empresas nos EUA de forma a viabilizar taxas de crescimento sustentado mais elevadas? e (2) os altos investimentos no ecossistema de IA (e.g., construção de data centers) irão gerar resultados financeiros sólidos no médio prazo?

Pesquisas sugerem que as empresas dos EUA estão bem-posicionadas para continuar se beneficiando de ganhos de produtividade, refletindo um mercado de capitais dinâmico, legislação trabalhista flexível, custos mais baixos de acesso a energia e liderança no desenvolvimento de IA. É importante também reconhecer que a revolução tecnológica associada com IA está ainda em sua infância e o impacto de aplicações de IA (por exemplo, agentes que desempenham tarefas de forma independente) tem um potencial significativo de alavancar a produtividade daquelas economias que se encontram na fronteira dessa transformação tecnológica. Por outro lado, ainda que o impacto dessa tecnologia seja positivo, não há garantia de que as dívidas assumidas para o seu desenvolvimento poderão ser pagas no médio prazo. Essa questão (a estabilidade financeira de empresas de IA) é particularmente relevante para aquelas empresas que ainda estão se endividando para investir no ecossistema de IA na medida em que os seus lucros não são capazes de financiar tais investimentos. Esse descompasso pode gerar a ruptura da “bolha racional” associada com a IA. Uma crise com essas características se torna ainda mais provável em um cenário macroeconômico caracterizado por endividamento crescente.

Considerações finais

O ano novo será marcado por tensões geopolíticas e a consolidação de esferas de influência no contexto das maiores potências militares. A ruptura da Pax Americana e a retórica beligerante da administração Trump, que parece ser inspirada pela proposição de que “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem” como articulado por Tucídides ao descrever o cerco de Melos por Atenas em 416 AC, contribuem para aumentar os riscos para a economia global. O realismo político adotado pelos EUA sugere que argumentos morais (e idealismo) não protegerão estados fracos em suas disputas com potências militares. A Venezuela, a Cuba, a Dinamarca, a Ucrânia e Taiwan que se cuidem. “Feliz” Ano Novo!

Carlos Primo Braga é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Autor.

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