
Era o primeiro dia do ano e, ao acordar, ele se permitiu uma fantasia. Entrou no carrão de seus sonhos, passou pelo banco e tirou milhares de reais que não tinha.
Foi ao shopping center, comprou aquele jeans, aquele vestido e os sapatos que tinha visto sua mulher namorando; comprou as camisetas e os tênis que eram a sensação dos filhos e, com uma alegria que nunca tinha experimentado, comprou aquela camisa de linho que há tanto tempo o provocava.
Comprou também calças, vários ternos, um cinto de cromo, maravilhou-se ao dar com um sapato igualzinho ao que não pôde comprar tempos atrás, vestiu-se de um novo homem e foi viver a vida que sonhava.
Que tal uma chegadinha ao escritório?
– Bom dia, doutor?
– Como vai, doutor, o senhor está muito bem hoje.
– Olá doutor, já providenciei tudo o que pediu.
Sentou-se em sua mesa de diretor-presidente, ditou ordens às secretárias, reuniu-se com fantásticos personagens, visitou altas patentes, deu entrevistas à televisão, subornou altos funcionários incorruptíveis, soube das coisas, comprou ações de grandes empresas, voou meio mundo em seu jatinho e, muito estressado, levou a família para um cruzeiro pelo oriente.
Tinha lido na véspera uma reportagem sobre o roteiro do “Stella Solaris” e levantou âncoras, senhor dos mares. Partiu do Porto do Pireu, perto de Atenas, passou por Istambul, Éfeso, Pérgamo, desceu em Port Said, passeou pelas pirâmides, percorreu as terras de Israel.
Naquele navio viu pessoas se conhecerem e as observou conviverem. Viu casais se formarem e se desfazerem. Percebeu como algumas pessoas oscilavam de momentos de intensa alegria para uma grande tristeza. Viu atletas se exibindo na piscina e velhos doentes tomando sol. Ao sabor das ondas, viu passarem países, cidades e praias; assistiu, muitas vezes, o pôr do sol e o amanhecer e pensou como a bordo de um navio o momento do mundo é bem demarcado.
No entanto, o “Stella Solaris” prosseguia no seu curso. As crianças exultavam, a mulher suspirava, ele sonhava. Aos poucos, tornou-se calado, parecia distraído e, quando caía a tarde, ficava horas a fio no convés, olhando o vai-e-vem das águas de encontro ao casco do navio. Outras vezes, deixava-se ficar um longo tempo observando o vôo das gaivotas ou pegava o binóculo e ficava procurando sinal de terra e, mais de uma vez, surpreendeu-se, atrapalhado, enxugando uma lágrima que lhe escapava.
De repente o navio ficou pequeno para tanta angústia, passou a manhã trancado na cabine e quando a mulher voltou, à tarde, encontrou um documento doando-lhe em vida, e aos filhos, os seguintes bens:
1 – A casa onde moravam
2 – O sítio
3 – A casa de praia
4 – O apartamento na Vieira Souto
5 – Todas as ações
6 – Todas as letras de câmbio
7 – O controle da Triplex SA.
8 – O Learjet
9 – Os carros
Enfim deixou-lhe tudo o que não tinha, e este bilhete:
– Vou viver minha verdade.
Enquanto isto, ele voava para o Brasil para assumir o amor que nunca assumiria. Sentiu que a terra lhe fugia dos pés quando desceu do carro para encontrar Maria Clara. Parecia ter uns 20 anos a menos, um adolescente, nada mais existia ou lhe importava. Ela estava no clube onde a tinha conhecido, naquele incrível verão de 2014. Avistou-a na alameda principal, onde a grama formava um extenso tapete verde (Deus do céu, ouvia ao longe “sua” música, Stardust) e ele corria para alcançá-la quando alguém gritou seu nome:
– João, João, João …
– João, levanta, ficou maluco? O carro da firma já veio buscá-lo para o plantão da tarde!
Era o primeiro dia do ano e ele levantou-se feliz por ter vivido, ainda que por instantes, a vida que nunca viveria.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.



