
“Feliz Ano Novo”, o livro de Rubem Fonseca, completou meio século de lançamento, um best-seller internacional, com narrativas de sexo, violência e conflitos entre classes sociais, o que motivou sua proibição pela censura do regime militar. Era ministro da Justiça Armando Falcão, que argumentou se tratar de obra contra a moral e os bons costumes. O livro rendeu inúmeros filmes, sucessos de público e crítica. Em 1985, depois da redemocratização, o autor ganhou, na justiça, a ação contra a o estado, e teve sua obra liberada.
Neste meio século o Brasil mudou muito, saímos de uma ditadura truculenta e entramos numa democracia sonolenta, onde as desigualdades sociais são as mesmas ou aumentaram, a violência cresceu, o tráfego e uso de drogas multiplicou, a insegurança se instalou assustadoramente, mas, é inegável, a assistência social tem sido um amortecedor de atritos maiores ente as classes. Entramos num período de sonolência e abstração do que acontece, e acontece gravemente, na democracia e desenvolvimento do país. Nosso atual regime tem tido intercorrências e instabilidades executivas, legislativas e judiciais, deixando inseguros nossos poderes institucionais, a correr riscos com os governos instalados. E então chega um novo ano.
Olhar o ano passado com suas atribulações, inseguranças políticas e jurídicas, é sofrer de novo o que não vale a pena, com cada uma das instituições sofrendo espasmos e crises de identidades. Perdeu-se o sentido de fronteira entre elas, suas autonomias, o executivo é incapaz de formar maioria no legislativo, logo não governa, o legislativo é incapaz de se afirmar diante do judiciário, logo não se impõe. O judiciário atropela a ambos e à própria constituição, sem freios nem limites. Logo não tem credibilidade. Fica então a dificuldade de desejar Feliz Ano Novo aos brasileiros.
Mas, 2026 é ano de eleições, quando uma pequena esperança renasce, quem sabe, por iluminação divina, consigamos eleger personagens que realmente queiram ver nosso país ser mais justo e com o crescimento necessário. Quem sabe deixaremos de perder as ótimas oportunidades de nos transformar numa nação à altura de nosso povo? Quem sabe os homens públicos, devotados de bons princípios, resolvam ser candidatos e nos livre de tantos oportunistas que assolam o atual poder nacional? Quem sabe o judiciário ganhe um regimento de comportamento que nos livre das transgressões acometidas? Os desejos de Feliz Ano Novo estão silenciados nos bons e justos corações de uma nação inteira. O povo, os pobres, os negros, os índios, os trabalhadores, os empresários, os bons políticos, todos estamos a esperar o milagre da união nacional em favor do país. Feliz Ano Novo.
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



