Feliz 31 de Dezembro! (por Luís Giffoni)

A cada fim de ano, a gente se lembra do janeiro que passou e faz um balanço dos compromissos assumidos. Geralmente deixamos alguma coisa para trás: [...]

A cada fim de ano, a gente se lembra do janeiro que passou e faz um balanço dos compromissos assumidos. Geralmente deixamos alguma coisa para trás: perder uns quilinhos, economizar uns trocados, ficar mais tempo com a família, comprar a casa ou o carro, encontrar o amor da vida, trabalhar menos, viajar um mês inteiro, escrever as memórias, ser mais paciente ou arrojado. Um leitor me garantiu que, no réveillon de 2024, jurou que passaria uma noite com a vizinha do quinto andar. Cortejou-a o ano inteiro – e nada até agora. Nossa lista de planos não realizados é interminável. Muitos, no apagar das luzes, tentamos fazer o que protelamos nos onze meses anteriores. Nem em ritmo de corrida de São Silvestre conseguiremos. Depois do Natal, tudo entra em recesso. Até o número de notícias ruins parece diminuir.

O Ano Novo, comemorado desde muitos séculos antes da era cristã, foi a solução que a humanidade encontrou para o problema das tarefas deixadas para trás. O mundo inteiro larga alguma coisa sem fazer ou malfeita. Precedido pelo solstício de inverno no hemisfério norte, isto é, a noite mais longa, o Ano Novo traz o fim das trevas, a vitória da luz, a volta da primavera e do replantio. Após muitas gerações, a data passou a significar recomeço, como se fizéssemos uma brusca interrupção no tempo, e uma borracha na memória apagasse o rascunho de vida anterior e abraçássemos a chegada do futuro perfeito, aquele que todos desejamos.

Sabemos que não é bem assim, mas a esperança não tem preço, é de graça. Por que não nos apegarmos ao sonho? Daí dizermos: “Ano Novo, vida nova”. Com quatro palavras, apagamos as promessas antigas e abrimos o caminho para as novas.

No entanto, acho mais importante comemorar o 31 de dezembro. Para mim, este é o principal dia, a data máxima. Significa que vencemos mais um ano, driblamos centenas de problemas, solucionamos outro tanto, conquistamos muita coisa, evitamos os azares do cotidiano, conseguimos o essencial: manter a vida, sobreviver. O que deixamos para trás sem executar é pouco frente ao grande prêmio. Porque chegamos inteiros (ou mesmo estropiados) ao 31 de dezembro podemos renovar as esperanças para o ano seguinte. Que possamos todos comemorar a data em 2026.     

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

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