O chinelo da democracia (Eduardo Fernandez Silva)

Ou melhor, a democracia do chinelo, uma maneira de governar que todos usem e da qual todos, e não apenas alguns, se beneficiem! Como é o [...]

Ou melhor, a democracia do chinelo, uma maneira de governar que todos usem e da qual todos, e não apenas alguns, se beneficiem! Como é o lema, “todo mundo usa”, assim deve ser a democracia. Hoje, infelizmente, em muitos locais, transformados em “demôniocracia”, que serve a poucos e alega seguir a “vontade dos eleitores”. Pergunto: quantos eleitores foram consultados para que os parlamentos dos países de população mais rica elevassem, significativamente, seus orçamentos militares? Quantos eleitores brasileiros se manifestaram apoiando a redução de verbas das universidades para engordar as descontroladas emendas parlamentares?

O chinelo está na base, na ligação da pessoa com a terra, supostamente usado nos seus momentos mais confortáveis, relaxados, calmos. Atualmente, entretanto, devido à pobreza que assola de 80% a 90% dos humanos, mundo afora, é fácil ver trabalhadores usando-os, ao invés dos necessários equipamentos de proteção! Dá mais lucro privado ser assim; também dá mais despesa pública, mas a demôniocracia prefere assim. E depois discursa para acabar com o déficit público pedindo corte não nos incentivos fiscais ao capital, mas nas despesas de proteção social!

A democracia precisa, sim, do chinelo e dos dois pés. E precisa também da cabeça, e desta ainda mais que da inteligência artificial. Por quê? Porque a IA, a começar pelo roubo que faz dos direitos de autores, consome também imensas quantidades de água e de energia, quando a necessidade global atual é de mais sossego e menos gasto hídrico e energético! Além disso, ela é desenvolvida não para resolver problemas coletivos, mas para gerar lucros para quem já é bilionário e, ademais, se opõe a todas as tentativas de controlá-la. Sendo assim, não seria a IA demoníaca, servindo mais, pois, à demôniocracia?

Precisamos “chinelizar” as decisões públicas, no sentido de ouvir, acatar e seguir o que dizem aqueles que ocupam a base da sociedade. Os expressivos avanços tecnológicos das últimas décadas ampliaram exponencialmente a capacidade de captar, ouvir e processar as preferências de grandes ou pequenos grupos populacionais. Tornou possível acatar as preferências dos moradores de um bairro sobre quais ações de governo lhes são desejáveis. Possibilitou, também, que os atos dos governantes sejam abertos, transparentes, de forma a executá-los conforme as preferências dos cidadãos.

No entanto, apesar dessa possibilidade, a demôniocracia tem travado essa necessária e benvinda transparência, como forma de proteger os questionáveis atos de ministros, desembargadores, juízes, parlamentares, executivos e demais “empoderados”, envolvidos com banqueiros Masters, milicianos, garimpeiros, pseudo-religiosos e outros “espertos”, que sugam o sangue daqueles que não têm sapatos, apenas chinelos. Frequentemente rotos!

Países mais bem administrados, com muito menos desigualdades, possuem mecanismos bem mais eficazes no que diz respeito a ouvir e acatar as preferências da base de suas sociedades. Por vezes, estes falham, como sucede hoje em algumas grandes e antes admiradas nações. Mas, ao contrário, quando se fortalecem, a vida melhora para todos, exceto os demônios.

Que em 2026 nossa demôniocracia calce chinelos e se transforme numa efetiva democracia, trazendo melhorias para a população! 

Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.

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