
Em 1988, dois anos antes de morrer, Cazuza cantava seu sucesso “Brasil”, como sempre exagerado, que bem retratava o tempo político que vivíamos. “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim. Brasil…” Há exatos trinta e sete anos o seu canto buscava o retrato, a cara do país, a definição da pátria com sua nova constituição, nos tempos conturbados da saída do militarismo para a chegada da democracia. Não foi uma transição fácil. Tancredo, eleito pelo congresso, falecera em 1985 e seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência com Ulisses Guimarães na Presidência do Congresso. Registre-se que Sarney era da antiga Arena, militarista, Tancredo e Ulisses do MDB, adversários portanto. Imaginem as negociações políticas para formar candidaturas, governo, fazer o país andar e redigir a nova carta magna.
Olhando o passado podemos nos alegrar por ter superado, aos trancos e barrancos, um momento delicado de nossa história. A política, diálogos, negociações e renúncias foram os ingredientes utilizados para se chegar ao entendimento de como o país seria melhor dali em diante. Foi o tempo das conquistas possíveis, dos avanços sociais e criação de novos modelos para a vida brasileira. Nem tudo saiu perfeito. Estamos, ainda, na busca de nossa cara.
Nas últimas eleições, assim como nas próximas, iremos nos deparar com a mais perfeita definição política do Brasil – estamos divididos, com posições ideológicas mais acirradas. O principal tema das campanhas será a surrada e absurda corrupção contra o Estado, utilizado por ambos os concorrentes não sem motivos. Nada evoluímos em relação ao comportamento ético dos governantes, ao contrário, pioramos muito desde a canção do Cazuza. E aí a pergunta: Brasil, qual é a sua cara?
Há uma nítida diferença entre o que pensa os brasileiros do norte, nordeste, incluindo Minas Gerais, e o que pensa os do sul, centro sul e sudeste, assim como são diferentes os candidatos. O Brasil que produz, gera riquezas, é diferente do Brasil dos menos favorecidos, nem por isso menos brasileiros.
Aí entra a sabedoria e arte dos negociadores da política, os homens de imenso valor nestes tempos de onde ceder, renunciar, mudar de posição ante a uma nova e melhor ideia, transigir e avançar, predicados para a busca da paz e harmonia da pátria. Acirramento, como estamos vivendo, só tem um destino, a quebra de nosso pacto social e democrático, estrutura de nosso Estado, que tão duramente tem sido conquistado.
Está na hora dos homens de bem, ocupantes de posições destacadas no Congresso, Judiciário, Executivo, Empresários, Federações e Associações tomem a frente das disputas ideológicas e busquem o equilíbrio, a serenidade e a ordem que nos assegurem um futuro sonhado por tantas gerações. O Brasil precisa mostrar a sua cara para o mundo, para si mesmo, um país forte, território privilegiado, povo trabalhador, natureza pródiga, celeiro do mundo, mas que infelizmente perde oportunidades demais. Percorre linhas tortas para alcançar o progresso e igualdade de seus cidadãos, deixa escapar chances raras, como agora, na economia mundial, tão carente de tudo que temos para dar e vender.
Cazuza ainda canta, na mesma canção, o seu desalento com o que via e quase nada mudou: “Não me convidaram para esta festa pobre, que os homens armaram pra me convencer, a pagar sem ver, toda esta droga que já vem malhada, antes de eu nascer”.
Que assim não seja.
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



