
Quando a gente percebe que as coisas estão acontecendo, é porque elas já aconteceram. Explico. As grandes mudanças sociais são percebidas quando suas causas já as haviam justificado. Quando a Revolução Francesa tomou as ruas, já acontecera na sociedade francesa. Quando aconteceu, simbolicamente, já acontecera de verdade, nas casas e nas pessoas.
Lula foi eleito quando a agenda que defendia já era majoritária. Lula tomou juízo, em 2003, quando percebeu que sua agenda vitoriosa não se faria no vácuo, precisava do resto da sociedade. Daí a Carta aos Brasileiros.
Deu certo. A agenda distributiva ficou inserida em nossas visões de mundo. E o Brasil pareceu decolar. Parabéns. Em 2003, até agora há pouco, a hegemonia do pensamento distributivista reinou. Não havia como falar contra o PT e seus caciques, suas políticas, porque tudo estava certo e toda crítica estava errada.
Em tempos de tal hegemonia cultural afunilam-se as demais visões. Tudo fica contido no vendaval hegemônico. Lula teve o mérito, indiscutível, de fazer da agenda social a agenda nacional. E esta precisa ser preservada. Mas junto com tal privilégio, veio a tal hegemonia considerada de esquerda, a nova hegemonia cultural, a imbatível, a indiscutível, o politicamente único. Ficamos reféns desta hegemonia. Tudo bem, hegemonia é assim mesmo.
Mas deu errado. A moçada que aderiu ao grande brasileiro, Lula, ao qual deveríamos todos, à época, aderir, de combate à desigualdade, tinha, também, outra agenda, a da inveja das elites anteriores que se locupletaram da boa convivência com o Estado. E a moçada fez trapalhadas porque “os outros também fizeram antes“. E como agora o Estado era deles, tinham direito às trapalhadas.
Deu errado. A Constituição de 88, cheia de erros aritméticos, continha acertos institucionais. Cresceu uma outra moçada investigativa e independente. E deu no que deu. Junto com a moçada do Lula, nasceu outra, a dos investigativos. Nossa Constituição é assim, cheia de erros e acertos.
O Brasil acertou por linhas tortas e certas. E lá se foi o PT e seus lulas.
Mas não devemos sacrificar a agenda que os trouxe. É totalmente legítima e dela não podemos perder o foco. A ladroagem, tudo bem, a gente começou a administrar. A desigualdade, nem tanto.
Precisamos manter o foco. Mas apareceu outra encrenca, que é a insegurança urbana. Mais um problema, mais um desafio. Mas o que esperávamos? Que um país atrasado, pobre e mal educado, fosse dar certo por conta de uma meia dúzia de bolsas, de casas?
Pois não vai dar certo somente com bolsas e casas. Precisamos de valores, de ética, de educação, respeito, coisas tantas, que não vem somente com as casas e bolsas. E não vem rapidamente. Demora.
Aí, deu errado de novo, a moça, a Presidenta, santos meus, presidenta, e seus associados, ademais de fracassarem na aritmética, fracassaram na compreensão de quem somos nós, pobres, acossados pela violência, não temos como dar conta de um governo que seja mais incompetente que nós. E o governo foi mais incompetente que nós.
A correção agora proposta não tem perigo de dar certo, porque o ajuste fiscal não passaria de uma ponte para continuar querendo fazer mais do mesmo para ver se dá para acertar a mosca. Está aí o documento recente da Perseu Abramo/PT para não deixar dúvida.
Aí mora um dilema. Os cientistas políticos consultados nos dizem que é assim mesmo, que uma coisa é a vida em geral, outra coisa é a política, a política não tem moral, ou se a tem, a tem numa categoria especial de “moral política“, que nem a tal de “vontade política“. Naturalizamos a desgraça.
Dentre as invenções brasileiras e únicas, a tal vontade política e a tal moral política pontificam. Se você pensar bem, com seus botões, não existe a tal vontade política, muito menos a tal moral política. Não se adjetiva o absoluto.
Mas afinal, do que estou falando no meio da semana? Penso que as grandes transformações são moleculares, microscópicas, muito mais que institucionais. A resposta mora no que faz a sociedade. Se a sociedade não mudou, não mudou o resto, se os costumes não mudaram, não mudou o resto, se não somos melhores, não será melhor o resto. Estamos cansados e consumidos pelos desastres da política nacional.
As ciências sociais e os economistas enfatizam a importância das instituições, no que estão certos e, no caso brasileiro, protegidos de crises maiores. Mas há o fundamento, que é social, microscópico, molecular. Só mudaremos quando já tivermos mudado sem perceber.
E o que faria uma sociedade mudar? Ficar melhor, mais ética, mais produtiva? Esta é a questão de um milhão de dólares. Nesta, deveríamos trabalhar. Se não o fizermos, vamos eleger outro Collor, outro Lula, outro salvador. E assim o faremos enquanto não percebermos que a salvação não está em cima, mas embaixo. Muitos estudos de cientistas sociais do passado analisaram isto, mas tal perspectiva foi substituída por interpretações mais institucionalistas.
Está na sociedade a resposta. Mas isto saiu de moda. Agora, está nos movimentos sociais a resposta, nas palavras de ordem, no politicamente correto, e no exclusivo funcionamento das instituições.
Aí está. Estamos governados por uma gente chata, empolada, cheia de interesses próprios e de rituais. Se eles não vão mudar, quando será que a sociedade vai mudar? Esta gente chata nos governa desde sempre, sabe tudo sobre nós, mudam os anos, os mandatos e as pessoas e tudo fica parecido. Moramos em Lampedusa.
Edson de Oliveira Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Berkeley. Foi Presidente do IBGE, Presidente do Conselho Nacional de Educação. É Professor Emérito da Universidade Candido Mendes. Autor



