
O papo se iniciou sobre carros, a falta de jeito do motorista em dirigir o carro novo da empresa:
− Não é o que eu guio sempre, este que me deram para buscar o senhor. É um bom carro, mas é muito grande.
E concluiu:
− É carro para sítio.
− É carro para sítio.
Aí então o outro arriscou, dando sua contribuição para que a conversa rendesse.
− Impressionante esse negócio de sítio, não é mesmo? Quanto mais coisa tem lá, mais a gente leva e trás. Não dá nunca pra dizer: “Vamos para o sítio agora”. E não ser preciso levar nada.
− Ah! Mas é igual eu falo: é coisa de mulher. A gente acha isso, ela acha aquilo. Se disser pra ela que é para levar um trem qualquer, aí ela acha que não deve.
− Isto mesmo. É a “harmonia dos contrários”.
− Taí. Gostei desta “harmonia dos contrários”. Eu acho assim: a mulher é uma criatura distraída. Ela não percebe, como a gente, o que está acontecendo. Todo mundo me diz isto.
− É verdade? As pessoas comentam isso com você?
− Ah! O clamor é geral. A gente está falando sobre “a”, elas estão pensando em “b”. Mas não é por mal. Elas são assim.
− Não avaliam a extensão dos problemas, é o que quer dizer?
− É por aí, quer ver? Eu tenho uma certa preguiça de falar com os outros sobre os meus problemas. Sei lá. Sou meio econômico naquilo que falo. Mas um dia desses, acho que foi anteontem, eu tinha até acabado de fazer as contas pra ver se dava pra chegar até o fim do mês, aí então venci aquela preguiça de falar sobre as minhas coisas e passei horas contando pra minha mulher sobre um problema sério que anda atrapalhando os meus negócios. E falei, falei, falei, sobre uma reunião que fiz com outras pessoas envolvidas, a raiva que tive, etc., etc. Sabe de uma coisa? Eu abri a alma. E tinha de ser para ela, não é o caso? Para quem haveria de ser? É a minha mulher, gente! Ela dava a impressão de ouvir tudo, e quando acabei de lhe contar o caso, ela, enquanto guardava o regador, comentou: “Sempre te falei que esse síndico é um chato”. Ela tinha entendido que eu falava da reunião do condomínio.
O outro olhava pela janela e observava a incrível tarde azul da primavera, enquanto o motorista contava o caso. E, ao voltar-se para ele, viu que levantava as mãos do volante e fazia um movimento com a cabeça, como se dissesse: “É isto aí. Assim é que é a vida”.
Resolveu então perguntar:
− E vocês continuam juntos? Nunca pensou no divórcio?
O motorista encerrou o papo, olhando o passageiro com um ar que tinha um pouco de surpresa, sabedoria e pena.
− Ora, ela é assim, eu sou do meu jeito. Esse negócio de desquitar é para esses moços desmiolados. Como o senhor diz: é uma bruta contrariedade. Mas, no fundo, é uma harmonia danada.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



