Bilhões de árvores: como a China criou um dos maiores projetos de reflorestamento da história

Durante décadas, a China plantou bilhões de árvores para enfrentar um problema que [...]

Durante décadas, a China plantou bilhões de árvores para enfrentar um problema que avançava sobre parte de seu território: a desertificação. O esforço atingiu uma escala tão grande que seus efeitos sobre a vegetação passaram a ser detectados até por satélites.

A história começou em 1978, quando o país lançou o Three-North Shelterbelt Program, gigantesco projeto de recuperação ambiental conhecido como a “Grande Muralha Verde” da China. O objetivo era criar extensas barreiras de vegetação no norte do país para reduzir a erosão, proteger áreas agrícolas e conter tempestades de areia e o avanço da desertificação.

E não se trata de um projeto de poucos anos. Planejado para continuar até 2050, o programa deverá completar 72 anos de execução.

A dimensão impressiona. A região abrangida pelo programa corresponde a aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados, cerca de 42% do território chinês, e a meta original prevê o estabelecimento de cerca de 35 milhões de hectares de cinturões florestais. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) já descreveu o Three-North como o maior programa de aforestamento do mundo.

Quando se fala em bilhões de árvores, o número não é apenas uma maneira de ilustrar a dimensão do projeto. Além do Three-North, a China realizou grandes campanhas nacionais de plantio. Dados reunidos pela FAO registram 27,9 bilhões de árvores plantadas entre 1987 e 1997 dentro da Campanha Nacional de Plantio Obrigatório. Outro levantamento da organização contabilizou 49,2 bilhões de árvores ao longo de 20 anos em ações voluntárias.

Há, porém, uma ressalva importante: esses são números de plantio e não significam que todas as árvores tenham sobrevivido ou chegado à idade adulta.

Mesmo assim, a transformação da vegetação chinesa tornou-se grande o suficiente para ser observada do espaço.

Em 2019, um estudo publicado na revista científica Nature Sustainability, baseado em dados dos satélites Terra e Aqua, da NASA, entre 2000 e 2017, mostrou que o planeta estava ficando mais verde — e China e Índia tiveram participação particularmente importante nesse fenômeno.

O resultado da China chamou atenção. Embora o país concentrasse apenas cerca de 6,6% da área vegetada do planeta, respondeu por aproximadamente 25% do aumento líquido global da área foliar observado no período.

Nem todo esse verde, entretanto, representa novas florestas. Na China, aproximadamente 42% do aumento estava associado às florestas e 32% às áreas agrícolas. Os pesquisadores relacionaram parte importante da expansão florestal aos grandes programas de conservação e reflorestamento desenvolvidos pelo país.

Os satélites não contaram individualmente os bilhões de árvores plantadas. O que registraram foi algo diferente e cientificamente relevante: um aumento mensurável da vegetação em enorme escala.

Um dos capítulos mais recentes dessa história aconteceu no deserto de Taklamakan, na região de Xinjiang. Em novembro de 2024, a China anunciou a conclusão de um cinturão verde de aproximadamente 3 mil quilômetros ao redor do deserto.

A intenção não é transformar todo o Taklamakan em uma floresta — algo pouco realista em uma região extremamente árida —, mas ajudar a estabilizar dunas, reduzir o deslocamento da areia e proteger estradas, áreas agrícolas e comunidades próximas. Segundo informações divulgadas pela Reuters, mais de 30 milhões de hectares já haviam sido plantados no âmbito do Three-North.

A experiência chinesa também revelou os limites de projetos dessa dimensão. Em algumas regiões, árvores morreram por falta de água ou porque as espécies escolhidas não eram adequadas às condições locais. Plantações com pouca diversidade também podem ser mais vulneráveis a doenças e pragas.

Por isso, as estratégias foram sendo modificadas. O combate à desertificação passou a envolver não apenas árvores, mas também arbustos, gramíneas, recuperação da vegetação natural, estabilização de dunas e diferentes técnicas de manejo do solo.

Essa distinção é importante. Desertos são ecossistemas naturais e não devem simplesmente ser transformados em florestas. O desafio é principalmente recuperar terras degradadas e impedir que a degradação avance sobre regiões produtivas.

Quando o Three-North começou, em 1978, a internet ainda não existia para o público e os satélites capazes de monitorar continuamente a vegetação global ainda estavam longe de entrar em operação.

Nem todas as experiências deram certo e nem todas as árvores sobreviveram. O próprio projeto mostrou que simplesmente plantar mudas não basta: é preciso escolher espécies adequadas, preservar recursos hídricos e recuperar os ecossistemas de maneira sustentável.

Mas, depois de décadas de trabalho, um resultado é particularmente impressionante: a transformação tornou-se grande o suficiente para ser registrada do espaço.

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