Homens e Crenças (por Raul Filho)

Existe uma crença curiosa no ser humano: a de que, se ele analisar o passado, encontrará uma forma de [...]

Existe uma crença curiosa no ser humano: a de que, se ele analisar o passado, encontrará uma forma de alterá-lo.

Há quem passe anos revisitando conversas encerradas, oportunidades desperdiçadas e decisões tomadas. Funciona mais ou menos como assistir ao replay de uma partida e acreditar que o placar ainda pode mudar.

Talvez por isso a canção Não Olhe Pra Trás, de Dinho Ouro Preto e Alvin L., continue atual mais de vinte anos depois de composta.

A música começa lembrando algo que a realidade insiste em repetir: “Nem tudo é como você quer”. Uma informação simples, mas que segue sendo recebida por muitos como se fosse uma agressão pessoal.

Vivemos numa época em que todo mundo tem opinião sobre tudo, acesso a tudo e certeza sobre quase nada. Em outro verso da canção parece outra provocação: “sua inteligência ficou cega de tanta informação”. Em 2004 era uma observação. Em 2026 parece um laudo.

Enquanto isso, seguimos procurando soluções sem problemas, respostas sem perguntas e certezas sem riscos. Como diz a canção, “Cada escolha é um dilema”. Escolher a hora de pedir desculpas, por exemplo, parece exigir mais esforço do que correr uma maratona.

Curioso é que as pessoas costumam tratar as tristezas passadas como um patrimônio. Conservam culpas, mágoas e arrependimentos com mais zelo do que guardam sorrisos de infância.

E talvez uma pequena felicidade comece no dia em que entendemos que o retrovisor foi inventado para olhadas rápidas. Quem insiste em dirigir olhando apenas para trás provavelmente não encontrará o caminho certo.

E “se não faz sentido, discorde comigo, não é nada demais”.

Se “são águas passadas, escolha uma estrada e não olhe, não olhe pra trás”.

E escute a canção.

Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação

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