Mania de fobia (por Luís Giffoni)

Sou um homem de pouca sorte. Dentre centenas de possíveis fobias – medo avassalador de animais, [...]

Sou um homem de pouca sorte. Dentre centenas de possíveis fobias – medo avassalador de animais, objetos, lugares, situações ou mesmo de coisas indefiníveis –, todas já estudadas e nomeadas, contraí não mais que duas dezenas. No entanto, se bem conheço minha suscetibilidade, ainda experimentarei muitas, desde as mutuamente excludentes até aquelas que os doutores da mente humana, no afã de catalogar, fizeram-no várias vezes, sob nomenclaturas diversas.

Meus terrores começam com as atuações de meu time, o Galo. De tão amedrontadoras, provocam-me alecterofobia, quer dizer, ao deparar com qualquer galo, frango ou mesmo galinha, fico gelado, com as pernas bambas e, se não desmaio, saio correndo. Desenvolvi uma técnica para não tomar conhecimento de resultado de jogo: jamais leio o caderno de esportes dos jornais, em decorrência de uma logofobia, o medo das palavras, muito incrementada pelo ofício de escritor, pois sempre me estremeço diante de uma página em branco.

Ao mencionar página, argh!, sofro acesso de papirofobia, já que não suporto qualquer tipo de papel. Como se não bastasse, só de ouvir a palavra branco, passo mal. Essa cor me mata de leucofobia. Tenho saudade da época em que o amarelo me trucidava, mergulhando-me em crises de xantofobia, bem mais brandas. Bons tempos!

Por falar em tempo, as irrupções de cronofobia andam me pegando pelo pé. Pela cabeça também. Meus cabelos caem tanto que peno uma tremenda falacrofobia, meu horror pela calvície. Para contornar o problema, arrumei uma solução genial. Adquiri uma rara eisoptrofobia, a impossibilidade de encarar o espelho. Há males que vêm para bem. A eisoptrofobia me recuperou da terrível ritifobia, a ojeriza por rugas, provocada sobretudo por pés-de-galinha. Brrr! Pé-de-galinha é uma das coisas mais assustadoras da língua. Além de galinha, tem pé, a parte do corpo que mais me perturba. Causa-me seguidos ataques de pediofobia.

O Congresso Nacional oferece-me um neologismo, a politicofobia, que me faria vomitar treze vezes, caso eu não sofresse de emetofobia, a gastura incontrolável por tudo que tenha circulado no estômago, além da angustiante triscaidecafobia, o arrepio que só o número treze consegue impingir. A cada desvio de verba pública, pioro de minha harpaxofobia, o temor de ser roubado ainda mais uma vez. Para evitar a ladroagem, cogitei pôr fogo na Praça dos Três Poderes, mas fui contido pela pirofobia, que me impede de acender até palito de fósforo. Assim, jamais sararei da parasitofobia, uma doença gerada pela atuação de muitos políticos brasileiros.

Por tudo, vivo em pânico. Já não consigo tomar banho, devido à ablutofobia, contraída na França. Jamais saio à rua, impedido pela agorafobia. A uranofobia me proíbe olhar para o céu. Sem falar que céu me remete ao infinito, essa ideia horripilante que me causa apeirofobia. Nem Deus me salva desse mal, pois a zeusofobia me estarrece.

Sonho com uma deliciosa fobofobia. Pagarei bem a quem me der medo de ter medo. No cartão de crédito, é claro, pois não toco em dinheiro ou cheque. Quanto antes, melhor, pois plástico começa a me tirar o sono. Não disse que iria arrumar doença nova?

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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