
A um botânico francês chamado Commerson foi dado um dia o privilégio de identificar uma flor muito bonita, à qual decidiu dar o nome de hortênsia.
Pouco se conhece desse botânico e de sua flor, além do fato de ter sido ela originária da China e de seu nome ter sido dado em homenagem a uma dama chamada Hortense, esposa do relojoeiro de sobrenome Lepaute.
No mais, o tremendo charme, que só aos botânicos é dado, de acordar num belo dia de primavera e dizer “muito bem, pois hoje vou encontrar uma nova flor e a ela darei o nome de uma mulher bonita”.
Não se sabe que reação terá tido a senhora Lepaute (ou seu marido), ambos lisonjeados por Monsieur Commnerson. Da hortênsia, flor, sabe-se que entrou nas mais apuradas casas como planta ornamental e que suas flores, antes brancas e rosadas, acabaram por ganhar outras nuances como, por exemplo, o azul, graças a esses processos que os floricultores foram desenvolvendo, para encanto dos nossos olhos. Certo é que a hortênsia se tornou marcante pelas suas cores vivas e sua durabilidade, bem a propósito, por se tratar de planta destinada à ornamentação.
Como, no entanto, o homem não se satisfaz com o que a natureza lhe deu, acharam agora de dar ainda mais durabilidade à hortênsia, através da desidratação. É hortênsia para relojoeiro nenhum botar defeito – ela é imune ao tempo – mas, como a natureza cobra sempre um preço por tudo aquilo que cede ao homem, a flor desidratada perde a cor, e a bela hortênsia branca, lilás, rosa ou azul tomou o matiz tristonho das flores secas: tornou-se palha.
Não se engane o leitor que essa hortênsia, sem nenhum perfume e cor, não corre o risco de ser desprezada ou estocada nas prateleiras das floriculturas. Ao contrário, por ser inodora, irá abrilhantar as mesas dos banquetes e das conferências e, por sua cor neutra e durabilidade, há de ser encontrada decorando salões supostamente requintados.
Lendo o anúncio das hortênsias desidratadas oferecidas em ricas embalagens de presente, fico pensando como é nítida a analogia entre essas flores – às quais se sacrificaram o colorido e o perfume pela durabilidade e facilidade de agradar – e o caráter de algumas pessoas.
O caráter é, com efeito, o somatório de cores inerentes a uma pessoa e que as distingue de outras. É o seu modo de ser, sentir, agir; é o seu perfume, e sua aura. Quando alguém abre mão de sua índole para amoldar-se ao ambiente e com ele conviver por mais tempo, é como a hortênsia desidratada: suave, discreta, compondo-se em qualquer arranjo; só que deixou de ser ela própria, tornou-se no que os outros a fizeram.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



