Abel Ferreira fala muito. E tem razão (por Erasmo Angelo)

O treinador palmeirense Abel Ferreira, além de sua incontestável competência, é considerado por muitos [...]

O treinador palmeirense Abel Ferreira, além de sua incontestável competência, é considerado por muitos da mídia como um técnico que gosta de emitir conceitos que o diferenciam dos demais, quase sempre entendidos como arrogância, promoção pessoal, vontade de polemizar.

O que não se pode negar, contudo, é que Abel fala verdades que quase sempre incomodam alguns grupos que preferem, por comodismo, achar que “o futebol brasileiro é assim mesmo”. Uma tola justificativa para não se envolverem em questões sérias como, e entre outras, calendário, condições físicas dos atletas, fracas arbitragens, gramados ruins, gramas sintéticas, horários de jogos, iluminação irregular e vai por aí.

No último domingo (23), após o Palmeiras golear o Vasco (4 a 1), no Alianz, um repórter quis saber de Abel as causas da irregularidade no rendimento técnico do Palmeiras nas últimas partidas, fato que, no entendimento do jornalista, já estava deixando a torcida insatisfeita.

Em sua resposta sobre queda de criatividade e rendimento, Abel generalizou. Não vê a questão como exclusiva no Palmeiras, mas que atinge todas as equipes. E destacou:

O próprio contexto do futebol brasileiro faz com que as equipes muitas vezes não consigam jogar no seu potencial máximo. Já falei 500 vezes: viagens, tempo de descanso, falta de treino, gramados diferentes, acúmulo de jogos; você precisa trocar jogadores para tentar manter a equipe com força máxima”.

Completou, indagando:

Quem no futebol brasileiro consegue manter constância o tempo todo e jogar sempre bem? Nem Chelsea, nem City, nem Barcelona. E aqui seria diferente?”

Bem relevante na sua coletiva, é que Abel situou o “contexto do futebol brasileiro”, para o que ocorreu naqueles 4 a 1. Deixou transparecer não o mérito do Palmeiras na goleada, mas as reais e deficientes condições físicas e técnicas do adversário.

O Palmeiras tem elenco forte para colocar em campo peças de qualidade em substituição aos titulares mais desgastados pela sequência desumana de jogos. Mas, o Vasco, não possui tamanha quantidade e qualidade – entre titulares e reservas (como ocorre com a maiores dos times). O clube carioca, que atravessa longa crise financeira, possui, se muito, seus 11 titulares e alguns reservas apenas razoáveis, que também se sacrificam em campo para suportar a carga.

Vejam que no curto espaço de 10 dias o Vasco, carregando suas deficiências (que também atingem muitos outros clubes), teve que disputar quatro jogos seguidos. Dia 13, em casa, enfrentou o Olimpia (Paraguai) e empatou sem gols, pela Copa Sul-Americana. Três dias depois (16), também em casa, perdeu de 3 a 0 para o Santos. Mais dois dias (18) e viajou ao Paraguai onde ganhou (dia 20) de 4 a 1 do Olímpia. No dia 21 retornou ao Rio e na tarde seguinte (22) viajou para São Paulo onde, 24 horas depois, levou de 4 a 1 do Palmeiras. E tem mais: três dias após a goleada em São Paulo, jogou em casa (dia 26) contra o Vitória/Ba, pela Copa do Brasil e venceu (1 a 0), apesar de atuar mais de 50 minutos com dez em campo. E ainda: mais três dias (29) recebe o Cruzeiro, sábado, pelo Brasileirão. Resumindo: em apenas 17 dias, seis jogos. Uma barbaridade. Viagens, concentrações, hotéis, alimentação diferente, transportes variados, sonos incompletos, ausência de familiares etc.

É este o “contexto do futebol brasileiro” sobre o qual tanta fala e adverte o treinador Abel Ferreira. Ele sabe reconhecer – e o faz muito bem – que jogador de futebol não é máquina. Pena que tem muita gente influente no futebol que não pensa assim. Para estes, quanto mais jogo mais dinheiro.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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