As placas tectônicas da fé: a transição religiosa e o amálgama político no Brasil (por Nelson Luiz Ferreira Pinto)

Durante os anos de chumbo e a redemocratização, a Teologia da Libertação desempenhou um papel histórico e [...]

A clássica tese do sociólogo David Martin sintetiza, com precisão cirúrgica, o maior paradoxo sociocultural do Brasil na virada do século: “A Igreja Católica optou pelos pobres, mas os pobres optaram pelos pentecostais”. Sob o aparente silêncio das periferias, as placas tectônicas da nossa sensibilidade cultural e moral moveram-se de forma decisiva, gestando o vulcão político que emergiu na década de 2010.

Durante os anos de chumbo e a redemocratização, a Teologia da Libertação desempenhou um papel histórico e corajoso ao articular as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). No entanto, ao focar intensamente na macropolítica, na reforma agrária e na luta contra a opressão de classes, a Igreja Católica secularizou seu púlpito. O trabalhador que cruzava a nave do templo carregando dores viscerais — o desemprego imediato, o alcoolismo do cônjuge, a depressão ou a severidade de uma enfermidade familiar — deparava-se frequentemente com elaboradas palestras sobre justiça social. Buscava-se o mistério, o consolo espiritual e o bálsamo místico; encontrava-se, por vezes, um seminário de sociologia.

O pentecostalismo operou no hiato dessa carência imediata. Onde o clero católico tradicional erguia uma muralha acadêmica e filosófica para a ordenação sacerdotal, o pentecostalismo contrapôs a horizontalidade: o pastor é o vizinho da esquina, o trabalhador informal ou o ex-dependente reabilitado que fala a língua crua da comunidade. Diante de um Estado ausente, a igreja evangélica estruturou-se como a rede de solidariedade primária e definitiva, oferecendo desde creches informais e reinserção produtiva até um porto de identidade e dignidade para o cidadão invisível, rebatizado sob a condição respeitável de “irmão”.

O avanço evangélico nas periferias brasileiras não foi um acidente de percurso ou fruto de mera manipulação; foi o resultado de uma fusão perfeita entre o acolhimento prático e a legítima defesa moral diante do vácuo institucional.”

Essa capilaridade social encontrou no DNA místico e sincrético do povo brasileiro o terreno perfeito para frutificar. O pentecostalismo, ao valorizar o arrebatamento sensorial, a cura ativa e a expulsão de demônios, dialogou diretamente com as raízes espirituais mais profundas do país, fundindo o transe a uma teologia de “batalha espiritual” que oferece um alívio psicológico imediato: ao externalizar o mal na figura de um Diabo atuante, desonera-se o fiel do peso esmagador de uma culpa intransponível, permitindo-lhe a absolvição rápida e o recomeço moral. Paralelamente, a Teologia da Prosperidade atuou como uma psicologia motivacional pragmática. Longe de ser apenas mercantilismo da fé, ela organizou a vida doméstica e financeira do trabalhador periférico, valorizando seu esforço individual e consagrando a sua busca por mobilidade como um projeto abençoado por Deus.

Essa transição silenciosa foi catalisada no plano institucional pelo próprio Vaticano. Nos anos 1980 e 1990, sob a égide doutrinária de João Paulo II e do então cardeal Joseph Ratzinger, Roma desidratou a ala progressista da Igreja Latino-Americana, calando vozes como a de Leonardo Boff e substituindo bispos reformistas. Ao enfraquecer as CEBs, a hierarquia católica esvaziou a sua própria presença capilar nas periferias, deixando o campo livre para a consolidação do neopentecostalismo.

A consolidação desse contingente como uma força política monolítica, contudo, demandou um amálgama defensivo. Se a expansão religiosa se deu no varejo do cotidiano, a unificação do movimento no atacado político deu-se pela reação àquilo que os fiéis interpretaram como um cerco à sua dignidade sagrada. Na arena pública, a profanação de símbolos sagrados por vanguardas estéticas e discursos culturais de esquerda foi percebida não como liberdade de expressão, mas como um ataque direto à única âncora existencial de populações vulneráveis, empurrando massas moderadas para a trincheira conservadora. Nas franjas sociais onde o alcoolismo e a desestruturação familiar são epidêmicos, pautas morais como a defesa da vida e da família tradicional são percebidas como barreiras vitais contra a barbárie. O próprio resgate da autoridade paterna e a exigência do homem como pai responsável, pregados nos púlpitos, operaram um resgate social prático de enorme valor nas periferias.

O vulcão político de 2018, portanto, não irrompeu no vácuo. Ele foi pacientemente gestado na fusão entre a teologia do acolhimento imediato e a defesa das âncoras morais básicas da sobrevivência periférica. A esquerda e o catolicismo tradicional falharam em ler o movimento dessas placas tectônicas; e, no “Brasil profundo”, o Espírito soprou onde havia o vácuo.

Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado

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