A feiura como sintoma e a urgência da beleza (por Leon Myssior)

Quem acha que a beleza e a harmonia não importam, e não tem impacto na vida, não entendeu nada, ou [...]

Quem acha que a beleza e a harmonia não importam, e não tem impacto na vida, não entendeu nada, ou vive imerso numa bolha de feiura ela mesma. Quem acha que a boa arquitetura não importa, padece do mesmo mal.

A beleza importa. E importa para além do apelo de locais “instagramáveis” ou para a valorização imobiliária; importa como um elemento vital para a própria engrenagem da vida

urbana. A beleza importa para a cidade, mas importa de forma ainda mais contundente para

as pessoas que ali habitam. Um ambiente urbano esteticamente estimulante, harmônico e bem cuidado contribui ativamente para a saúde mental, elevando o estado geral de felicidade, nutrindo a criatividade e, acima de tudo, fortalecendo o engajamento afetivo do cidadão com o seu lugar.

O oposto disso, infelizmente, é o que temos testemunhado com assustadora frequência. A feiura no espaço urbano não é inofensiva; ela é o sintoma da decadência estampado, a olhos vistos, como um agente permanente e silencioso provocando angústia, tristeza e depressão.

Cidades feias produzem cidadãos desengajados, e pessoas que transitam sonâmbulas pelo espaço, sem qualquer pertencimento, sem qualquer vínculo.

Essa relação entre o estético e o espírito humano não é nova. Em Crepúsculo dos Ídolos, Friedrich Nietzsche já argumentava que a feiura é, na verdade, um sintoma fisiológico e psicológico de degeneração e exaustão. Para o filósofo, uma sociedade que se encontra em

declínio perde a sua capacidade intrínseca de produzir vitalidade, nobreza e beleza. O resultado é a produção de uma arte – e, por extensão, de uma arquitetura – que transmite

apenas peso e decadência.

O escritor britânico G.K. Chesterton, em seu livro Shaw (1909), cunhou uma daquelas frases que servem de espelho para muitas de nossas metrópoles: “A decadência da sociedade é

louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes“. A

degradação, quando normalizada, passa a ser retroalimentada por aqueles que deveriam

combatê-la.

É bem verdade que, intelectualmente, a feiura tem seus defensores (que não são, necessariamente, admiradores). Umberto Eco, na História da Feiura, defende que o feio não

é meramente a ausência do belo, mas uma categoria estética autônoma, imprevisível e, em

muitos aspectos, muito mais rica do que a beleza. Eco argumenta que, enquanto os critérios

de beleza historicamente buscam seguir regras rígidas e monótonas de proporção e harmonia, a feiura é infinita em suas formas. Para o autor italiano, a feiura pode ser uma transgressão intencional, um ato de provocação consciente.

A explicação é inteligente, mas não se aplica às nossas cidades: uma caminhada pelas ruas, e

fica evidente que a nossa feiura urbana não carrega qualquer traço de “transgressão intencional” ou genialidade provocativa. O que temos, ao contrário, não é o feio sublime ou literário; é o feio banal. Uma feiura que nasce, invariavelmente, como o resultado trágico e direto da preguiça, da pressa e de uma pobreza cultural que se expande à velocidade da luz.

A paisagem tem sido loteada por prédios inteiramente desprovidos de proporção, de graça

ou de qualquer cuidado com o entorno. Projetadas às pressas, sem vontade e sem qualquer

reflexão, essas edificações repetem fórmulas mercadológicas batidas e incrivelmente cansadas. Como uma linha de montagem que prioriza o empilhamento em detrimento do acolhimento, a arquitetura contemporânea das nossas ruas trocou o ofício da composição pelo pragmatismo rasteiro, revelando uma irresponsabilidade profunda em relação ao legado que deixaremos para as próximas gerações.

A volumetria dos edifícios expõe a apatia dos agentes envolvidos. O que vemos erguido nas

esquinas são volumes preguiçosos, que existem sem trabalho, automaticamente a partir da extrusão mecânica das plantas e da distribuição utilitária das janelas dos apartamentos. Como diz o Carlinhos, só de olhar o prédio, a gente já sabe quantos quartos tem, quantos banheiros, e de qual modelo dos anos 1990 deriva a planta. 

Não há um pensamento sobre a escultura no espaço, sobre como aquela massa dialoga com o movimento do sol, com a topografia ou com a calçada. O lado de fora sequer é desenhado; ele é apenas a casca decorrente do leiaute interno, um reflexo do desengajamento quase absoluto com a vida em comunidade.

Para tentar disfarçar essa aridez arquitetônica, aplica-se, de vez em quando, uma maquiagem constrangedora. A mediocridade do traço tenta ser compensada com adornos superficiais: alguns vasos de planta estrategicamente posicionados para simular “verde” (arquitetura biofílica, a última moda nos folders de venda), ou detalhes incrivelmente pobres e aleatórios aplicados nas fachadas. São arremedos de estética que funcionam como um sorriso amarelo, peças publicitárias incapazes de esconder a falta de substância da obra, e de esconder a ausência de uma arquitetura que tenha nascido com propósito.

Tudo poderia ser feito de forma totalmente diferente, claro. O espaço para o respiro, para o

diálogo com a rua e para a gentileza urbana ainda existe, bastaria reivindicá-lo como regra.

No entanto, a opção preferencial parece ser economizar na arquitetura (economizar tempo,

economizar dinheiro, economizar a própria arquitetura), para depois gastar desesperadamente em campanhas de venda cada dia mais barulhentas. Negligenciando a harmonia dos prédios, dos quarteirões e das ruas, esquecemos que a cidade é o pano de fundo da nossa existência, e um dos suportes (ou agressores) de nossa saúde mental, percepção de felicidade e sensação de pertencimento.

Reivindicar a beleza urbana, portanto, não é um luxo abstrato, pueril; é uma emergência de saúde pública e de sobrevivência do nosso próprio espírito.

Leon Myssior é Arquiteto e Urbanista, Diretor Executivo da Incorporadora CASAMIRADOR, e fundador do INSTITUTO DA CALÇADA. Autor

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