Saber Viver (por Lindolfo Paoliello)

a educação nada mais é do que o convívio com os que sabem. [...]

Este hábito de ouvir e prestar atenção às conversas dos mais velhos vem de muito tempo, de minha infância, da observação das conversas de meus pais com as visitas.

Geralmente, lá pelas tantas, juntava duas das cadeiras grandes, de tampo de couro, da mesa da sala de jantar, ou isso era feito por algum dos visitantes, achando graça no meu modo.

Nas férias fazia a mesma coisa na casa de meu avô, à tarde, na varanda interna, de cadeiras de vime, ou à noite, na sala, onde os amigos se sentavam junto à cadeira de balanço para ouvirem o Senador.

Mais tarde houve o tempo em que meu avô mandava que eu acompanhasse seus amigos até suas casas. Eram senhores idosos, com seus 80 anos, que muitas vezes me convidavam para entrar e suas esposas ofereciam-me biscoitos e doces, enquanto eles contavam coisas de suas vidas.

Na vida profissional logo alguém entendeu de me pôr como assessor e assessor fui sendo pela vida afora, só que sempre ouvindo mais do que falando, já que a educação nada mais é do que o convívio com os que sabem.

Não é à toa que escreveu Guimarães Rosa: “Mestre é aquele que aprendeu”, coisa que me foi dita por Amaro Lanari Junior, que, aliás, era dito e feito. Um homem peculiar, o Dr. Lanari, não direi que sábio, porque isso o ofenderia como homem inteligente. Mas foi alguém que aprendeu e isso o capacitou a, sem querer, ensinar. Tinha uma noção toda sua da vida e do tempo, que faz lembrar o espírito da Provence. Para ele, dizer que uma tarefa deve ser feita dentro de un Petit quart d`heure podia significar que ela ficaria pronta a qualquer momento de hoje, amanhã ou depois, mas era feita com prazer e esgotados todos os raciocínios pró e contra que a levariam próxima à perfeição.

Foi esse homem que, presidindo uma vez uma grande empresa, num dia de muitas decisões, fundamentais para a própria sobrevivência da organização, foi num desses dias que ele me chamou e perguntou:

– Como vai o nosso patrocínio à restauração do Colégio Caraça? Se conseguirmos fazer aquela obra, estará justificada minha passagem por esta empresa.

Em passagens assim foi que esse mestre da siderurgia brasileira me ensinou que a vida não é para ser resolvida a ferro e fogo.

Lindolfo Paoliello é cronista e em julho lançará nova coletânea de crônicas: “A guerra de cada um”.

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