Arte x Ciência (por Luís Giffoni)

O mundo inteiro conhece esta equação, famosa desde que Einstein a publicou há mais de [...]

O mundo inteiro conhece esta equação, famosa desde que Einstein a publicou há mais de um século: E = mc2.

Ser ou não ser, eis a questão – eis uma das frases mais conhecidas da literatura, legada por Shakespeare há mais de 400 anos.

Newton também deixou sua marca na física, tornando-o uma celebridade: F = G x (M1xM2/R2).

Orestes Barbosa pôs numa canção alguns dos mais belos versos da nossa língua: … e a Lua, furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão. Tu pisavas os astros, distraída…

Que incompatibilidade existe entre a arte e a ciência, entre Einstein, Shakespeare, Newton e Orestes Barbosa? Que exclusão necessária afasta a Mona Lisa da mecânica quântica? Equações e versos falam de mundos díspares, fora do contexto humano?

A velha cisão entre a ciência e a arte sempre volta à tona. Partidários de uma ou outra corrente tentam demonstrar a incompatibilidade entre elas, expor sua dissociação intrínseca, seus antagonismos, como se artistas e cientistas pertencessem a espécies distintas. Estes, às vezes, desdenham da literatura, enquanto os escritores desprezam quem engendrou e construiu a bomba de Hiroshima.

De um lado, o hermetismo de estudos literários deflagra críticas contundentes, respingando sobre a escrita em geral. Um físico famoso, prêmio Nobel, pilheriou: “a ciência torna inteligível aquilo que não se sabia; a literatura faz o contrário”. Por sua vez, Walt Whitman, num poema inspirado, despreza os astrônomos e deixa-se perder no sereno da noite, maravilhado ante o silêncio das estrelas.

O êxtase e o espanto diante do Universo e da vida não são privilégio de ninguém. As fotos de uma galáxia distante podem oferecer o mesmo arrebatamento de um texto de Machado de Assis. Por que quantificar ou qualificar os arrebatamentos com a arte e com a ciência, separando-os, tornando-os excludentes?

Ciência e arte, como qualquer outra atividade, tentam entender nosso mundo, procuram capturar os múltiplos aspectos da dimensão humana e acrescentar-lhe outros. Durante a criação, a execução trilha processos parecidos numa e outra busca. Inspiração, raciocínio, emoção, luta contra as dificuldades, cansaço, frustração fazem parte do cardápio comum. Poetas e físicos temem uma folha de papel em branco, à espera de um verso ou de uma equação.

Eis a verdadeira luta, o bom combate. Se o verso e a equação terão valor é uma questão secundária. O valor será, em última instância, estabelecido pela sociedade, e juízos variam com o tempo. Tanto para a arte quanto para a ciência. Importa, isso sim, criar, aumentar nosso grau de entendimento do mundo, objetivo que jamais completaremos.

Ainda bem que o gosto por literatura ou por ciência continua, na maioria das pessoas, movido pela curiosidade inata, pelo lúdico, pela extensão do conhecimento sobre si mesmo e sobre o universo, pela captura da emoção e do prazer. Niels Bohr e Guimarães Rosa, cada um à sua maneira, eram sábios.

Não existe incompatibilidade entre a arte e a ciência. Os excessos de uma ou outra são acidentes de percurso, comuns a qualquer atividade. Os êxitos, idem. Afinal, ambas são produtos do gênio humano. E também do gene humano. São nossa natureza despudorada.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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