A cidade também educa: por que a beleza precisa estar na escola (por Leon Myssior)

Quem nunca foi apresentado à harmonia e ao cuidado, passa a vida com expectativas muito baixas, e [...]

Quem nunca foi apresentado à harmonia e ao cuidado, passa a vida com expectativas muito baixas, e dificilmente vai demandar melhorias.

Você já reparou que, se um livro for ruim, a gente fecha? Se o filme for chato, dá para sair
no meio da sessão. Mas, uma cidade feia, mal cuidada e hostil, não tem como fugir. A gente
é obrigado a viver nela. O desenho das ruas e a qualidade dos prédios moldam o nosso
humor e o nosso comportamento todos os dias, quer queiramos ou não.

Nas escolas, faz-se um trabalho indispensável ensinando matemática e português (que,
claro, deveriam ser ensinadas com propriedade, afinco e efetividade, como comprovam as
notas brasileiras em todos os rankings mundiais). Essas disciplinas são a base de tudo, do
raciocínio lógico à capacidade de se expressar e trabalhar.

Mas, para a formação ser completa, falta um terceiro pilar: aprender a ver o mundo com
olhos atentos à beleza e à harmonia. Se a matemática ajuda a calcular o mundo e o
português a explicá-lo, o ensino da arte e da arquitetura ensina como habitar esse mundo
com dignidade, civilidade e expect it ativa compatível com o nível civilizatório alcançado.
O ensino de artes e história da arte até integram o currículo obrigatório do MEC, mas quem
tem filhos em idade escolar já se acostumou a ver esse conteúdo desprezado e desidratado
ao paroxismo, escondido em atividades desimportantes, abafado pelos “temas
transversais” (aquela grande área de difícil circunscrição, fluida, onde cabem “direitos
humanos”, educação para o trânsito, saúde, meio ambiente e cultura afro-brasileira e “povos
originários”, etc, etc).

Arte, arquitetura e urbanismo são coisas sérias, mas dependem de uma “fundação”, de uma
base na arte, na história da arte; são coisas sérias, e merecem ser levadas a sério (abra a
sua janela, caminhe pelo seu bairro, e me diga se arte, arquitetura, paisagismo e urbanismo
não são coisas sérias?).

E esse aprendizado não pode ficar restrito aos livros. Ele precisa ganhar as ruas, com
visitas regulares a museus, teatros, prédios históricos, parques e jardins bem projetados.
Essa vivência tem um peso ainda maior quando olhamos para a realidade do nosso país.
Uma parcela enorme das nossas crianças cresce em favelas e nas franjas das cidades —
locais muitas vezes marcados pelo abandono, pela sujeira, pela falta de saneamento e pela
ausência completa de praças, museus, centros culturais ou áreas de lazer.

Quando a escola leva essas crianças e jovens para fora da sua comunidade e os apresenta
a um museu importante, a um edifício com arquitetura de qualidade ou a um parque bem
cuidado, uma janela imensa se abre. Esse contato expande horizontes. Mostra para a
criança e para o jovem que o mundo pode ser organizado, limpo e acolhedor, tirando aquela
sensação de que o cenário feio e degradado é a única realidade possível. Isso desperta a
curiosidade, eleva a autoestima e, principalmente, planta a semente da esperança e do
desejo de transformação.

Sentir-se bem em um lugar bonito não é uma abstração, e nem é pessoal. A ciência já
comprovou isso. Pesquisadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, usaram
inteligência artificial para analisar milhares de fotos urbanas e descobriram que as pessoas
se sentem muito mais felizes e saudáveis em locais visualmente agradáveis,
independentemente de serem bairros ricos ou pobres. A beleza acalma e acolhe.
Na mesma linha, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que
frequentar espaços culturais e ter contato com a arte reduz drasticamente o estresse e a
ansiedade em jovens, além de estimular a criatividade. O mesmo vale para o contato com
áreas verdes planejadas.

Cientistas da Universidade de Michigan defendem que caminhar por um parque bem
desenhado — aquela natureza feita para a contemplação e o descanso — limpa o cansaço
mental causado pelo excesso de telas e pelo barulho do trânsito.

Além de fazer bem para a mente, a boa arquitetura e os espaços públicos atraentes são os
melhores remédios contra a divisão social. Parques e praças limpos e bonitos funcionam
como ímãs. Eles aproximam pessoas de realidades totalmente diferentes, estimulam a
convivência e geram respeito mútuo. Em uma praça bem cuidada, todos os cidadãos
dividem o mesmo espaço com o mesmo direito e a mesma dignidade.

No fim das contas, democratizar o acesso ao belo desde a infância é o único caminho para
mudar o futuro do nosso espaço urbano. Afinal, uma população que não conhece o que é
bom, que nunca foi apresentada à harmonia e ao cuidado, passa a vida com expectativas
muito baixas, e dificilmente vai conseguir cobrar melhorias.

Só quem aprende a ter apreço pelo belo é que se torna capaz de transformar um país,
melhorar a sociedade e exigir das autoridades cidades melhores, mais seguras, mais
limpas, mais belas e, acima de tudo, mais inclusivas.

Leon Myssior é Arquiteto e Urbanista, Diretor Executivo da Incorporadora CASAMIRADOR, e fundador do INSTITUTO DA CALÇADA. Autor

Compartilhe esse artigo: