O mito da nacionalização (por Adriano Oliveira)

Nacionalização significa o entrelaçamento entre a eleição presidencial e a eleição para governador. Nesse [...]

Nacionalização significa o entrelaçamento entre a eleição presidencial e a eleição para governador. Nesse caso, o eleitor que vota no presidente Lula tende a votar também no candidato ao governo do estado apoiado por ele. Por outro lado, estadualização significa o desatrelamento entre a eleição presidencial e a disputa para governador. Quem vota no presidente Lula pode escolher para governador um candidato que não seja apoiado pelo presidente da República.

Quando políticos, jornalistas e estrategistas falam em nacionalização, geralmente fazem referência à causalidade. Por exemplo: o apoio do presidente Lula ao candidato X ao governo do estado faria com que o eleitor votasse nesse candidato em razão da influência presidencial. Nessa interpretação, mesmo que o governador esteja bem avaliado, o fator decisivo para a escolha do eleitor seria o apoio do presidente da República. Assim, a avaliação da gestão estadual se tornaria uma variável secundária na definição do voto.

É justamente nessa interpretação da causalidade que reside o principal equívoco. Existe, de fato, correlação entre a eleição presidencial e a eleição para governador. Contudo, a estadualização também está presente. Haverá eleitores que votarão no candidato X em razão do apoio de Lula. Mas também haverá eleitores que votarão no governador Z em razão da aprovação de sua gestão e, simultaneamente, votarão em Lula por avaliarem positivamente o governo federal. Ou seja, a avaliação do governo continua sendo uma variável causal relevante. Governos bem avaliados tendem a vencer eleições.

Observando as eleições estaduais no Nordeste entre 1994 e 2024, Bahia e Ceará destacam-se como os estados com maior incidência de eleições nacionalizadas. Em ambos, 75% das disputas para governador produziram vencedores alinhados ao campo político vencedor da eleição presidencial. Na outra ponta, a Paraíba apresenta o maior grau de estadualização da região, com 87,5% das eleições ocorrendo sem alinhamento entre os candidatos eleitos para governador e presidente da República. Pernambuco também apresenta predominância da estadualização, com 62,5% das eleições marcadas pela autonomia da dinâmica política estadual. No agregado regional, observa-se um equilíbrio entre os dois fenômenos: 50% das eleições seguem o padrão da nacionalização e 50% seguem o padrão da estadualização.

Desde a introdução da reeleição, os governadores nordestinos conseguiram renovar seus mandatos em aproximadamente 57% das oportunidades. Quando decidem disputar a reeleição, porém, a taxa de sucesso aproxima-se de 80%, revelando a forte vantagem do incumbente. Em Pernambuco, por exemplo, 100% dos governadores que buscaram a reeleição conseguiu renovar seus mandatos: Jarbas Vasconcelos, Eduardo Campos e Paulo Câmara.

Portanto, o aspecto mais relevante para compreender as eleições estaduais não é a nacionalização, mas a força do incumbente. Em outras palavras, governadores bem avaliados tendem a ser reeleitos independentemente do contexto nacional. A influência presidencial pode existir e, em determinadas circunstâncias, ser importante. Contudo, a experiência eleitoral brasileira mostra que a aprovação do governo estadual continua sendo um dos fatores mais poderosos na definição do voto para governador.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia.

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