Greta Garbo sabia de tudo (por Nestor de Oliveira)

No século passado, quando o Brasil conheceu seus anos dourados, era comum os cinemas promoverem [...]

No século passado, quando o Brasil conheceu seus anos dourados, era comum os cinemas promoverem festivais de filmes com temas ou artistas escolhidos. Festival Western, Festival Hitchcock, Festival Geny Kelly e assim por diante. Não existiam shoppings e todos os cinemas eram nas ruas, causando um certo frisson em seu entorno com as imensas filas para comprar ingressos ou término das sessões. No final dos anos sessenta, lembro-me bem, o cine Palladium, na Rua Rio de Janeiro quase esquina com Av. Augusto de Lima, promoveu o Festival Greta Garbo, a mais bela e melhor atriz que, na história, iluminou a tela deste mundo mágico. Greta era sueca e naturalizou-se norte-americana tornando-se mito de Hollywood por sua beleza exótica, corpo escultural e voz rouca, de fazer tremer ouvidos e corações. “Anna Karénina” foi a abertura, eu estava lá. Depois “Mata Hari”, “A dama das Camélias”, “Grande Hotel” e “Ninotchka”, de segunda a sexta, uma semana de filmes e histórias inesquecíveis. Comprei meu ingresso, enfrentei uma fila imensa, comprei pipoca e me preparei para ver, de novo, um dos mais belos filmes jamais produzidos. Foi quando conheci Carmem.

A este tempo era comum os rapazes usarem barba e cabelos longos, roupas pretas e um jeito beatinik de ser. Era nossa forma de demonstrar que rejeitávamos o conformismo burguês, os seus costumes e valores convencionais, assumindo uma filosofia de vida e comportamento muito diferente para o padrão médio da época. Assim eu estava, tipo bicho grilo, quando ela e uma amiga se aproximaram e ficaram ao meu lado, enquanto esperávamos entrar. Uma breve conversa foi natural, ela charmosa, longilínea, cabelos longos e claros, soltos em cachos, vestida com uma bata azul claro, deixando ver que não usava soutien, saia de fino algodão desfiado na barra, sandálias artesanais, uma bolsa pequena, também de pano azul. A amiga perguntou:

– Você mora aqui perto?

– Moro, na rua Santa Catarina, em Lourdes. Logo ali. Respondi.

– Quase nosso vizinho.

Trocamos apresentações e contei que em frente tinha um ótimo barzinho, chamado Saloon, para um drink depois da sessão. Elas se entreolharam, riram, e foi liberada a entrada. Nos perdemos de vista no meio do grande empurra-empurra na busca dos melhores lugares. Greta Garbo, neste filme, vive o papel de Anna, casada com um alto burocrata russo, mas é infeliz no casamento, se encanta com um Conde e por ele se apaixona. Baseado em romance de Liev Tolstoi, escritor russo, livro considerado por Dostoievski, Nobokov e Faukner como “uma impecável obra de arte”. O desempenho da atriz é fantástico.

Acabou a sessão e fiquei na saída à espera das meninas que logo apareceram.

– E aí? Vamos ao Saloon? Perguntei.

Aceitaram, atravessamos a rua e uma nova fila nos esperava. Agora foi mais rápida, nos assentamos, alguns drinks e fui acompanha-las em casa. Descobri que eram frequentadoras do barzinho, pois moravam na Avenida Augusto de Lima, Edifício Paraopeba, onde chegamos rápido demais para meu gosto. Mal deu tempo de andar de mãos dadas com Carmem, nos beijar na despedida e combinarmos de voltar para ver “A dama das Camélias” na quarta-feira. Fomos, mas aí já é outra história.

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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