A estranha racionalidade de ser previsível – reputação, confiança e o paradoxo da repetição (por Elson Pimentel)

Nos artigos anteriores em Capa Brasil, procurei mostrar como a teoria dos jogos pode ajudar na reflexão [...]

Nos artigos anteriores em Capa Brasil, procurei mostrar como a teoria dos jogos pode ajudar na reflexão sobre os projetos de vida: primeiro no eixo do autoconhecimento, depois no eixo da vida em sociedade. Resta agora o terceiro: a vida profissional.

O mundo do trabalho parece um espaço puramente técnico: estudar, adquirir competências, conseguir emprego, crescer na carreira. Essa imagem é incompleta, pois a vida profissional também é um sistema de interações estratégicas contínuas, onde decisões produzem efeitos que se acumulam ao longo do tempo, moldando reputações, relações de confiança e oportunidades futuras. Não somos avaliados apenas pelo que fazemos hoje, mas também pelo que os outros acreditam que faremos amanhã.

Carreiras não são decisões únicas

Uma carreira não se parece com um jogo único, mas com um jogo repetido, onde pessoas se reencontram e tentam antecipar comportamentos futuros. Robert Axelrod (The Evolution of Cooperation, 1984) definiu ‘sombra do futuro’ como a expectativa de que as partes voltarão a se encontrar. Quando essa sombra é longa, cooperar deixa de ser ingenuidade e se transforma em estratégia.

A teoria dos jogos mostra que, em interações repetidas, reputação se torna um ativo estratégico. Como observam Dixit e Nalebuff em A Arte da Estratégia (2008), a reputação opera como uma ‘memória’ que permite prever comportamentos sem contratos explícitos a cada passo. Não basta ser competente. É preciso também tornar-se alguém com quem valha a pena trabalhar novamente. Há um paradoxo aqui: em certos contextos, ser previsível é vantagem; em outros, é sentido como constrangimento. No mundo profissional, porém, a previsibilidade é essencial, pois reforça a coordenação e a garantia mútua.

O ambiente profissional também é construído

Ambientes profissionais não surgem prontos. São produzidos pelas interações entre as pessoas e dependem de expectativas compartilhadas: confiança mínima, regras tácitas, reciprocidade e cooperação. Thomas Schelling, Nobel de Economia em 2005, mostrou em The Strategy of Conflict (1960) que muitas interações funcionam com convergência tácita, sem contratos detalhados. Quando essas expectativas mútuas se alinham, o ambiente ganha estabilidade. Quando se rompem, os custos de transação se multiplicam e a cooperação passa a ser instável e excessivamente custosa.

Muitas vezes imaginamos a carreira como adaptação passiva ao ‘mercado’. Mas parte do desenvolvimento profissional consiste justamente em participar da construção do ambiente em que desejamos atuar.

Conheço um exemplo concreto disso: quatro médicos recém-formados em neurologia fizeram entre si um acordo de longo prazo. A cada ano, um viajava para especialização, enquanto os outros três sustentavam o trabalho. Com o tempo, formaram uma equipe altamente qualificada e complementar, criando as próprias condições para que novas oportunidades existissem. Esse caso revelou ainda que a resiliência da cooperação também depende da capacidade da reorganização diante de falhas.

Quem sabe um dos envolvidos nesse exemplo (meu amigo) relate, em um artigo futuro, como essa experiência se desenvolveu ao longo de quase cinquenta anos?

Competição, cooperação e confiança

Isso desmonta uma caricatura frequente. Quando se fala em estratégia, muita gente imagina manipulação ou competição permanente. Mas, em muitos contextos profissionais, a lógica funciona no sentido oposto. No filme O Estagiário (Meyers, The Intern, 2015) um aposentado de 70 anos entra em uma empresa de comércio eletrônico. Não entende de algoritmos, mas entende de previsibilidade. Sua pontualidade, discrição e lealdade, construídas ao longo de décadas, se transformam em vantagens estratégicas num ambiente de alta rotatividade e confiança escassa. O filme é o oposto de O Lobo de Wall Street: enquanto naquele o jogo era destruído pelos ganhos imediatos, aqui o jogo sobrevive graças à confiança acumulada.

Empresas, hospitais e escolas dependem de cooperação estável. Sem confiança, os custos aumentam: contratos, controles e conflitos consomem energia, e o ambiente se deteriora. A teoria dos jogos mostra que ambientes de cooperação não surgem apenas porque as pessoas são moralmente virtuosas. Eles surgem porque, em relações contínuas, cooperar acaba se tornando racional. A confiança passa a produzir benefícios acumulados que o oportunismo imediato não consegue sustentar.

Isso não elimina conflitos. Nem toda cooperação é justa. Em alguns casos, resistir a práticas erradas é precisamente o que preserva a integridade do ambiente profissional. Há situações em que manter princípios custa caro no curto prazo, mas impede a destruição da própria reputação no longo prazo.

Projetos de vida e horizontes de longo prazo

Para estudantes do ensino médio, tudo isso talvez pareça distante. Mas o ponto principal aparece antes mesmo da escolha da profissão.

No primeiro artigo desta série fiz referência a uma ‘miopia do futuro’. O diagnóstico de Márcio Pochmann — de que os jovens pressionados por resultados imediatos e incertezas perdem a capacidade de enxergar o amanhã — é especialmente cruel no campo profissional. É lá que a tentação do ganho rápido é mais forte e a punição pela traição da confiança demora mais a chegar. Se a carreira é um jogo repetido, então a única correção possível para essa miopia é exatamente recuperar a consciência de que o jogo continuará: amanhã, depois, daqui a cinco anos.

Numa sociedade ansiosa, pressionada por resultados instantâneos e instável, pensar estrategicamente talvez signifique exatamente recuperar horizontes mais longos.

Que tipo de ambiente suas escolhas ajudam a construir?

No primeiro artigo, a pergunta era ‘Quem sou eu?’; no segundo, ‘Como viver com os outros?’. Agora a questão se amplia: a vida profissional não é só escolher uma carreira, mas participar da construção dos ambientes em que ela existirá. Nossas escolhas ajudam a fortalecer (ou enfraquecer) relações de confiança, padrões de cooperação e expectativas compartilhadas. Aos poucos, consolidamos não apenas currículos, mas reputações; não apenas empregos, mas formas de convivência.

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes de um projeto de vida: não apenas que profissão desejo exercer, mas que tipo de ambiente profissional minhas escolhas ajudam a criar. É nesse movimento — de escolher, repetir, cooperar e construir — que, uma vez mais, um projeto de vida deixa de ser plano e passa a ser prática.

Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG

Ex-aluno do Colégio Estadual Central – BH/MG
Diretor da Aexa – Associação dos Ex-Alunos e Amigos do CE

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