O piloto que virou literatura (por Danielle Balieiro Amorim)

Nesta sexta-feira, 1º de maio, o Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, estará aberto ao público [...]

Nesta sexta-feira, 1º de maio, o Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, estará aberto ao público gratuitamente. Não há corrida marcada. O que acontece lá é uma celebração silenciosa e, ao mesmo tempo, barulhenta de memória: o Ayrton Day 2026, uma homenagem aos 32 anos da morte de Ayrton Senna — e também de Roland Ratzenberger, cujo acidente, na véspera, marcou tragicamente aquele mesmo final de semana em 1994. Visitantes poderão caminhar pela pista, conhecer a Sala Senna e participar do lançamento de um livro sobre ele. Sim, um livro. Porque Senna, há muito tempo, deixou de ser apenas um piloto. Ele virou personagem, mito, literatura.

Curioso pensar que um homem de velocidade tenha virado algo tão fixo no tempo. Ayrton Senna morreu em 1º de maio de 1994. Eu tinha 12 anos. Lembro perfeitamente o que estava fazendo naquele domingo. Aliás, quem não lembra? Mas minha memória mais forte não é da televisão, nem da notícia em si. É do rosto do meu pai. Da tristeza no olhar dele. Ele era fã, desses de verdade, que acordava de madrugada para ver corrida na Europa, que explicava para mim e para meu irmão cada curva, cada estratégia. Naquele 1º de maio, eu vi pela primeira vez um herói morrer diante dos olhos do meu herói. E foi assim que o legado de Senna chegou até mim — não por tabela, mas de herança.

Muita gente que admira Senna hoje nem era nascida em 1994. E ainda assim, seu nome continua sendo o primeiro que muitos brasileiros mencionam quando perguntados sobre um ídolo. Não é só futebol, não é só música. É um piloto de Fórmula 1. E isso diz muito sobre a potência de uma persona bem construída — ou melhor, sobre a potência de uma verdade.

Há algo de literário na trajetória de Senna. Ele tinha narrativa. O garoto que começou no kart, que foi pra Europa, que venceu com o câmbio quebrado no Brasil em 1991, que chorou em câmera, que falava de Deus e de propósito. Ele entendia de dramaturgia como poucos artistas. Não à toa, décadas depois, continuamos revisitando suas corridas como quem relê um livro querido. Sabemos o final, mas queremos sentir de novo.

O Ayrton Day 2026 também inclui a apresentação do livro “Senna: a magia da perfeição”, de Alberto Sabbatini — uma reflexão sobre o que torna o brasileiro um ponto de referência absoluto. E aí está o link que me interessa: Senna é estudado, escrito, relido. Vira ensaio, vira biografia, vira poesia. Quem diria que um homem que passava os dias a mais de 300 km/h acabaria nos ajudando a pensar sobre disciplina, espiritualidade, entrega — temas que atravessam qualquer boa obra literária.

Nesta sexta, não precisa ir a Ímola. Basta abrir um livro, ou rever um vídeo, ou simplesmente parar um minuto para lembrar. Lembrar do piloto, lembrar do que ele representava, lembrar das pessoas que amavam ele e nos ensinaram a amar também. Senna faz parte da nossa biblioteca afetiva — mesmo que ele nunca tenha escrito uma linha. Porque, como todo grande personagem da cultura, ele nos ensina a olhar para dentro enquanto ainda estamos correndo para fora.

Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.

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