
Com a Copa do Mundo 2026 tão próxima (começa em 11 de junho), também é oportuno abordar histórias incríveis que marcaram a competição ao longo dos anos. São histórias que, pelo significado dramático dos resultados de alguns jogos, até mesmo cruéis, o tempo não consegue apagar. Vamos recordar três deles, sendo que dois, por coincidência, tiveram como cenário Belo Horizonte.
A Copa de 1950, disputada no Brasil (primeira após a II Guerra Mundial), deixou na memória do futebol duas partidas que torcida e mídia, daqui e do exterior, eternizaram. E como rendem, até hoje, tal o sentimento devastador que provocaram.
A primeira delas parece absolutamente inacreditável, mesmo com o longo tempo em que ocorreu e tamanha a desproporção das forças técnicas envolvidas em campo. De um lado, a forte seleção que a Inglaterra formou para aquela Copa, e do outro a seleção dos Estados Unidos. Na, verdade, um ajuntamento que os norte-americanos trouxeram para a Copa, pois o país ainda “engatinhava” na organização do seu futebol, praticado de forma bem rudimentar.
Assim, em 29 de junho de 1950, uma quinta-feira à tarde – nesta data, na época, era feriado religioso – no superlotado Estádio Independência de Belo Horizonte (construído para a Copa), os “Reis do Futebol”, os ingleses, entraram em campo para dar um esperado show de bola. Não deram. Ou melhor, deram um vexame chocante, devastador, inimaginável.
Os Estados Unidos venceram por 1 a 0, gol de um tal Joe Gaetjens, um haitiano que residia em Nova Iorque e que antes daquela Copa do Mundo era lavador de prato. Pouco tempo depois do Mundial, retornou para o Haiti onde morreu assassinado.
A edição história da “Gazeta Esportiva Ilustrada”, sobre a Copa de 1950, na abertura do comentário sobre aquele tremenda zebra do futebol mundial, registra o seguinte e delicioso texto: “Inegavelmente, a grande “bomba” do Campeonato Mundial de 1950 estourou em Belo Horizonte, no dia de São Pedro. Nem mesmo os rojões e as bombas de parede que os garotos mineiros soltaram para marcar a passagem do último feriado santificado do mês de junho, conseguiram superar o estrondo provocado com a queda da coroa que estava colocada na cabeça dos ingleses, os chamados “reis do futebol”. Foi a “bomba de hidrogênio” do certame mundial”. Foi terrível. O futebol inglês demorou a superar aquela tragédia.
Mas, não é só. Dias depois, em 16 de julho de 1950, foi a vez da Seleção Brasileira sofrer sua mais dolorida catástrofe futebolística de todos os tempos. Era favorita absoluta para ser campeã da Copa de 1950 diante do Uruguai, no Maracanã, com recorde mundial de público no futebol (173.850, segundo dados oficiais), O Brasil, que começou fazendo 1 a 0, foi derrotado por 2 a 1. E precisava só do empate. Naquela Copa, a fase final foi disputada em um quadrangular (primeira e única vez). O Brasil fez 7 a 1 e 6 a 1 na Suécia e Espanha. O Uruguai 3 a 2 na Suécia e 2 a 2 com a Espanha. O Uruguai foi campeão e fez a torcida brasileira sofrer durante anos, no episódio que ficou conhecido como Maracanaço.
Desde então, a Seleção Brasileiro jamais usou o uniforme branco, o da catástrofe no Maracanã. Na Copa seguinte, de 1954, na Suíça, passou a adotar a camisa amarela como uniforme um. Foi também a primeira edição de uma Copa, a de 1950, na qual os jogadores passaram a usar números nas costas das camisas.
Se o uniforme branco foi abandonado no cruel desastre de 1950, 64 anos depois o Brasil, de camisas amarelinhas, sofreu a maior humilhação da história do seu futebol, então repleta de glórias memoráveis. Na mesma cidade (Belo Horizonte) onde os ingleses, então os “reis do futebol”, sofreram a inesquecível vergonha do vexame diante dos Estados Unidos (1950), a Seleção Brasileira amargou o massacre frente a Alemanha por 7 a 1, no Mineirão, em 08 de julho de 2014, na semifinal da Copa.
Os fatos são recentes e ainda permanecem indeléveis na memória dos torcedores. Restou, na triste história dessa goleada, a revelação do astro alemão daquela partida, o atacante Thomas Muller, na série “Chuteira de Ouro”, da FIFA, episódio 4. Indagado pelo ex-craque inglês Gary Lineker, sobre se o treinador alemão Joachim Low – durante sua preleção no intervalo do jogo (o placar já estava em 5 a 0) – pediu aos jogadores da seleção para “não envergonharem os brasileiros”, Thomas Mulller responde que sim. Low disse: “Certo, está 5 a 0, está acabado. Mas tenham respeito pelas pessoas, respeito pelos jogadores”. Bem, como se diz popularmente aqui no Brasil, o treinador alemão mandou sua turma “pisar no freio”. Talvez por isto o cruel vexame tenha terminado só no 7 a 1.
Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor



